O mês de janeiro começou bem estranho e não posso dizer que terminou como qualquer outro mês antes daquele. Eu estava as voltas com uma amiga grávida, uma investigação sobre quem seria o pai da criança e com os preparativos para ir embora. Mas a coisa que acabou me dando trabalho foi o meu pai.
Nossa relação sempre foi boa e eu não sentia que precisava de mais atenção, carinho ou dinheiro. Bom, talvez dinheiro, mas eu não era de pedir. Eu era independente? Sim. Ele passava muito tempo fora? Sim. Ele foi praticamente ausente na primeira metade da minha vida? Também. Mas quando decidiu assumir o papel de pai, ele fez isso muito bem. Tão bem quanto ele poderia. Se eu pudesse usar uma palavra para descrever meu pai, seria distraído.
Todas as vezes que eu tinha um compromisso e ele se atrasava para me buscar ou não aparecia, eu sabia que não era por mal. Ele perdia a noção do tempo com muita facilidade e esquecia as coisas. Foi com esses argumentos que ele começou aquela conversa muito estranha no sábado, quando chegou.
- Sabe, Elisa, eu achei que teríamos mais tempo juntos.
- Mais tempo?
- É. Nunca me passou pela cabeça que você quisesse ir embora.
- Eu já falei que...
- Eu sei, eu sei. Acontece que eu não vi o tempo passar. Sinto muito, eu não vi mesmo. Um dia eu chego aqui e você é uma menininha esperta demais para sua idade, no outro você já está no colegial e daqui a pouco vai querer ter a sua casa, o seu carro e a sua vida.
- Normal, né?
- Normal, sim. Mas é também muito triste. Por isso decidi recuperar o tempo perdido.
- Pai, o que é que você está pretendendo?
- Nós vamos viajar, só eu e você. Tirei o resto do mês de férias. São duas semanas, mas vamos fazer o máximo com isso.
Meu queixo caiu alguns centímetros com aquela notícia. Viajar? Não era o melhor momento, definitivamente. As aulas começariam na segunda semana de fevereiro, antes do carnaval. Não havia tempo para viagens, com uma Marcela grávida do outro lado da rua.
- Pai, de verdade, não precisa. Sabe, eu não vou morrer, só vou estudar.
- Mas você vai crescer! – ele gritou, exaltado – Vamos fazer isso sem brigas, ok? Por favor.
Fiquei olhando para aquela pessoa que eu percebi não conhecer tão bem assim. Eu sabia dos seus horários, dos seus hábitos, dos seus gostos, mas eu nunca tinha entrado na cabeça do meu pai. Não sabia como ele se sentia, o que pensava. Eu sabia que ele era meu fã número um, como ele mesmo dizia, mas não fazia idéia do quanto ele se importava. Isso me fez pensar no quanto eu me importava. Estava tão desesperada para ir embora que não pensei no quanto eu queria ficar, no quanto me doeria partir. Como seria a vida dali por diante? Como seria ir para uma cama estranha sabendo que meu pai não iria me dar um beijo de boa noite? Ele não me acordaria pela manhã com aquele irritante tapa nos pés e não elogiaria o meu café. Nós não assistiríamos mais CSI juntos, então não apostaríamos mais no assassino. Ele não me carregaria para a cama quando eu adormecesse no meio de uma das nossas maratonas de filmes. Ele estava certo, não faríamos mais parte da vida um do outro. Não do cotidiano, pelo menos. Eu sabia do seu esforço, sabia de tudo que tinha desistido para estar comigo. Perder tudo o que batalhamos para construir seria muito desolador.
- Acho que vamos viajar então – eu disse com a voz embargada – Que tipo de mala eu devo arrumar para nós dois?
- Vamos a La playa! – ele cantarolou hilariamente. Era meu pai, só meu. O pior foi a bendita música que grudou na minha cabeça.
E estrada prometia ser longa e cansativa, mas ele me surpreendeu com a notícia de que não iríamos de carro.
- Como assim, um helicóptero? Você está torrando a poupança da faculdade nessa viagem?
- Um amigo me devia um favor.
- Um amigo?
- É, pare de ser curiosa! Não está emocionada?
A palavra era aterrorizada. Até onde eu me lembrava, altura e abelhas estavam no topo da lista de coisas que me faziam tremer. Enquanto o taxi nos levava para uma fazenda próxima onde o bicho voador aguardava, eu ia fazendo minhas orações só por precaução.
A viagem, que deveria ter sido maravilhosa, foi tão emocionante quanto o fundo da minha mochila. Passei o tempo todo procurando alguma coisa imaginária dentro da mala para não ter que olhar pela janela ou para qualquer outro lugar que me mostrasse a qual distância que estávamos do chão. As poucas vezes que me arrisquei a espiar, senti meu estômago se transformar em um tijolo e tive aquela incômoda sensação de estar caindo. Não foi nada agradável. Tentei me concentrar nas músicas que tocavam no fone de ouvido e ignorar o resto.
Finalmente no chão - meu tão adorado chão – agradeci aos céus por ter sobrevivido e senti o suor começar a secar na minha testa e em minhas mãos.
- Você está horrível, Elisa. Verdade
- Eu acredito em você, pai.
Por mais que fosse um comentário exagerado, ficar ao lado dele não melhorava minha imagem. Ele parecia realizado, lindo com seus óculos escuros e sua camisa branca. Talvez minha mãe não fosse tão bonita, talvez eu me parecesse com ela. Só podia ser porque, verde como eu estava, não havia semelhança nenhuma com aquele moço de pé ao meu lado, além da cor dos cabelos.
- E agora? A gente acampa aqui embaixo do helicóptero?
- Só se você quiser, eu tenho um lugar melhor para ficar.
No carro fui observando a paisagem procurando descobrir o nome do lugar. EU me lembrava vagamente das minhas visitas ao litoral, sempre na Praia Grande ou São Vicente. Gostava muito da primeira, por causa da areia fina e quentinha, onde eu brincava de bife à milanesa. Cansada de procurar por um ônibus que dissesse “prefeitura de...”, comecei a pensar nos dias que viriam. Quando se é criança a gente só precisa de água e de outras crianças para se divertir na praia. Isso e sorvete. Mas o que será que gente adulta fazia na praia? Certamente não me encontrariam por ai jogando frescobol. E nem o meu pai fazendo longas caminhadas pela beira do mar. Uma coisa sabíamos fazer muito bem: comer. Talvez fosse a nossa salvação. Comeríamos dia e noite por duas semanas ou até explodirmos, o que viesse primeiro. Legal...
- Chegamos!
“Finalmente” pensei, já enjoada de viajar. O sol estava alto e quente, o dia estava lindo. E nós estávamos parados em frente a uma simpática casa branca, cheia de plantas. Sim, eu cheguei a pensar que houvesse mais plantas do que paredes. Fiquei preocupada que o os donos da casa fossem dois grilos enormes, verdes e nojentos. Apesar disso, era um lugar muito bonito e uma rua muito estreita. Do outro lado havia um morro com muita vegetação. Ao menos era calmo. “Impossível estarmos próximos da água”, foi meu segundo pensamento enquanto ajudava a descarregar as malas. Até onde eu sabia, toda praia tinha uma avenida chamada beira-mar. Não que meu senso de direção fosse bom.
- Você vai gostar daqui – ele abriu o portãozinho branco e entramos na mata atlântica que era aquele quintal – é um lugar mágico.
- Mágico? O que tem de mágico? Uma joaninha gigante?
- Você vai ver.
Subimos uma escada até a varanda de cimento queimado vermelho. Era rústico, mas muito bonito. Uma brisa morna começou a soprar e fechei meus olhos. Uma sensação boa percorreu meu corpo. Mal podia esperar para tirar meus sapatos e pisar naquele chão geladinho. Ouvi o som da porta destrancando e me virei para entrar. Meu queixo despencou alguns centímetros. Atrás da porta havia uma sala enorme, com três ambientes. Não foram os móveis lindos e nem o piso coberto com tábuas largas de madeira clara que me fizeram soltar as malas no chão, mas sim a porta dupla de vidro que separava a sala do outro quintal, iluminando todo o lugar. Atrás da porta, um gramado verde com um caminho de pedras que levavam a uma cerca branca de madeira, como nos filmes. Atrás da cerca, a areia branca, fina e o mar, verde em todo o seu esplendor.
- Pai...
- Eu sei. É mágico, como eu disse.
- É lindo.
A sala tinha grandes janelas com cortinas brancas e finas. Na parede sem janelas tinha uma grande estante com televisão, e dois sofás cor de areia muito fofos e ainda um tapete branco peludo. Sob a luz da porta, duas poltronas verdes e uma mesa de café na mesma cor do chão tinham sido posicionadas para ter uma boa visão do quintal e da praia, próximas a uma grande mesa de jantar. Era realmente muito diferente da minha casa.
- O que você quer fazer? Comer? Ver o resto da casa? Comer? Se trocar?
- Estou com fome sim, mas quero ver o meu quarto e trocar de roupa. Por favor?
Subimos uma escada entre a sala e a cozinha e chegamos a um corredor com cinco portas. Escolhemos os dois quartos com vista para o mar. Imaginei como seriam as minhas manhãs assistindo o sol nascer.
O quarto seguia a temática da casa, com a madeira clara, as paredes e cortinas brancas. A cama de casal ficava ao lado da janela e um charmoso armário na parede oposta. De frente para a cama, uma penteadeira com um espelho. Desejei que aquele decorador tivesse passado pelo meu quarto. Coloquei a mala sobre a colcha florida e abri a janela. “Lindo” foi só o que consegui pensar.
Assim que terminei de ocupar cada gaveta do lugar e saciar a minha neurose, coloquei um vestido azul claro estampado e uma sapatilha vazada. A coisa que eu mais detestava das praias era a necessidade de estar descalça o tempo todo. Tinha horror a pés.
Quando eu desci, meu pai me esperava junto á porta da varanda. Com a cabeça no portal ele parecia tão distante que me perguntei se estaria em outro lugar ou em outro tempo. Ao notar minha presença, segurou minha mão e me guiou até a praia. Eu me sentia caminhando em câmera lenta ao som de “Can’t help falling in Love”. Nós dois sorriamos, bestificados com o lugar. A areia era clara e fina, quente demais para pés descalços. A casa ficava no lado esquerdo da praia, próxima a um regato e ao píer. A brisa morna voltou a soprar sob o sol forte e eu comecei a suar. Estava quente demais. Talvez eu estivesse usando roupas demais. Olhei para o outro lado e vi que não estava em uma praia infinita como as que já tinha visitado. Estava praticamente vazia, só um par de senhoras escondidas debaixo do guarda-sol e de chapéus de palha, estrategicamente posicionadas próximas ao carrinho de batidas estacionado perto de um muro baixo de pedras. Não vi um quiosque e muito menos a rua.
- A praia é fechada, pai?
- Ah, quase. A entrada fica meio escondida, naquele pedaço de terra entre a montanha e o muro. Ali, na frente do píer, fica a propriedade de um cara muito rico, dono de uma rede de lojas materiais de construção. A lancha parada é dele também, mas outras pessoas por aqui chegam pelo mar.
- Só aquele caminho ali?
- Exato. E não tem quisque também.
- E nem ondas – observei – o mar é muito calmo aqui.
- É porque estamos voltados para o continente. Nas praias que dão para o mar tem bastante onda.
- Continente?
- É. Você não sabe onde está?
- Numa ilha do Pacífico Sul?
- Em Ilhabela, sua boba. Na praia da Feiticeira. É uma das mais badaladas durante a temporada.
- Feiticeira?
- Isso mesmo. Top top.
- Agora entendi a coisa da mágica – ele sorriu em resposta e respirou o ar salgado e quente da praia – Agora a gente pode comer, se você quiser.
Talvez fosse dispensável dizer, mas ele quis me levar a um restaurante de frutos do mar. Achei relevante, porque foi a primeira vez que entramos em um restaurante que não envolvia comida italiana ou rodízio de carnes. Rodando pela ilha vi todo o tipo de praia – desde aquelas que têm barcos atracados até aquelas com criancinhas correndo atrás do carrinho de sorvete. Senti uma vontade enorme de explorar seguida de uma vontade enorme de alguém que me acompanhasse nas minhas expedições. Não deixei que isso transparecesse, já que meu pai fazia tanta questão de que passássemos tempo juntos. “Ele certamente pensou em como fazer o tempo passar”, pensei. Sem o nervosismo ocupando meu estômago, a fome falou mais alto e todos os meus pensamentos giraram em torno de comida até um pouco depois da refeição. Então, de bucho cheio e exausta da viagem, meus pensamentos começaram a girar em torna na minha cama e de um ventilador.
Quando acordei, o sol estava baixo, preparando o crepúsculo. Imediatamente pensei na palavra crepúsculo e como ninguém a usava. Lembrei daquela música do grupo “The Platters” que começava “When the twilight is gone (ah, ahh, ahhhh) and no songbirds are singing (ahhhhh)” e comecei a rir como uma boba debruçada na janela. Já começava a sentir fome de novo, mas não podia manter essa dieta se quisesse caber no uniforme que meu pai tinha encomendado. Enquanto tentava me imaginar dentro do uniforme que tinha visto na brochura, a imagem do meu pai com o cabelo repartido de lado e cheio de gel voltou a minha cabeça, junto com a imagem de meu tio Osvaldo com cabelo. Era muito estranho. Talvez os bigodes enormes que ele usava servissem para compensar a falta que o cabelo fazia. Isso, cabelo na cabeça, não importa o lugar. Mais uma risada besta pela janela, assistindo a água mudar de cor. Talvez tenha sido alta demais, porque um moço que estava agachado perto do portão olhou para trás. Entrei em pânico quando ele olhou direto pra mim e senti meu rosto queimar. Não estava acostumada com gente olhando pra mim. O sorriso se desmanchou em uma cara assustada e logo me endireitei, mexendo na cortina para disfarçar. Ótimo disfarce. Quando olhei de novo para o moço ele sorriu. Imediatamente dei três passos para trás fugindo do campo de vista. Não estava acostumada a receber sorrisos.
Não é como se eu ligasse para quando riam de mim. Estava acostumada a isso. Conhecia pessoas que esperavam ansiosamente que eu gaguejasse durante uma leitura em voz alta, que tropeçasse em uma carteira no caminho para a lousa ou que tomasse uma bolada em cheio na aula de educação física. Eles queriam que eu desse algum motivo para rir, o que me obrigou a ser extremamente cuidadosa na escola. Mas isso não foi suficiente. Começaram a caçoar do som da minha voz, da forma como eu erguia a mão desesperada para responder qualquer pergunta, dos meus cabelos sempre presos em um rabo de cavalo embaraçado, da minha jaqueta azul, do fato de eu nunca ter beijado ninguém. Minha existência era motivo de chacota naquele lugar. Eu sempre fiz um bom trabalho ignorando as risadinhas às minhas costas, mas não era de ferro. Nos piores dias, chegava em casa, apagava todas a luzes, me escondia debaixo do edredom e chorava alto ao som de alguma música que me deixava muito triste. No topo da lista “All by myself”, “I should have known better”, “Fake plastic trees”, “Teatro dos vampiros” e qualquer uma do Evanescence. Depois de algumas horas no fundo do abismo eu estava de pé e pronta para jantar.
A coisa é que o moço não estava rindo de mim, ele estava sorrindo pra mim. E não era um moço velho e feio. Se fosse, eu certamente teria sorrido de volta e acenado. Ele era lindo e jovem. E eu tinha o mal hábito de sempre sonhar e fantasiar com o menino mais fora de alcance que eu conhecesse, por isso ao invés de sorrir, acenar e ser charmosa para compensar minha risada esquisita, eu tive que agir como a esquisita que sou. Quando estou despreparada, pessoas bonitas tendem a quebrar minhas pernas. E eu insisto em me torturar revivendo repetidas vezes o momento constrangedor, com direito a suspiros inconformados de “nossa...” e “ai, meu Deus”
- Por que você está tão corada? – ele perguntou enquanto jantávamos e eu balançava a cabeça, murmurando xingamentos para mim mesma - A gente mal ficou no sol!
- Por nada, pai – e fiquei mais vermelha com a memória, levantando da mesa apressada – É o calor.
- Aqui você deve usar muito repelente, é cheio de borrachudos. E faça o favor de ligar o repelente na tomada se for dormir com a janela aberta.
- Pode deixar.
Apoiei os cotovelos no peitoril da janela e apoiei o queixo em minhas mãos e comecei a imaginar como seria o mundo se eu fosse um pouco mais auto-confiante e não deixasse que meu próprio julgamento me massacrasse o tempo todo. Se eu conseguisse encontrar alguma beleza atrás das minhas olheiras e além dos meus culotes. Se eu conseguisse gostar de alguma coisa em mim além do meu gosto para filmes e da minha habilidade de ouvir as pessoas. Um medo tomou conta de mim e senti um calafrio correr na minha espinha. Como eu poderia sobreviver naquele lugar? Como eu poderia passar os dias me comparando e competindo contra aquelas meninas cheias de dinheiro e senso de moda? Elas deviam ser magras e bonitas. Eu seria a mais inteligente. E desde quando a inteligência é suficiente para tornar alguém popular? Em que universo Fabrício ia querer namorar comigo olhando para meu boletim? Eu não era loira, não tinha cabelo liso, não era alta e nem magra. Tudo estava contra mim, inclusive eu mesma. Teria que passar os próximos três anos como tinha passado os últimos quatro: em silêncio e no canto da sala.
Com o corpo amolecido pelo calor e por meus pensamentos, me arrastei para fora do quarto, com a intenção de ver o mar de perto. Ainda não tinha me molhado. Deixei meu pai adormecido na rede na varanda e fui pulando o caminho de pedras até chegar à areia. Para a minha surpresa, ainda estava quente. Apesar de nenhum poste iluminar a praia, a noite estava muito clara. O luar que apaga as estrelas enchia o lugar. Era realmente impossível não se apaixonar por aquele lugar. Talvez eu devesse me mudar para o litoral. A vida parecia muito melhor naquela praia vazia onde ninguém ia ficar reparando nos meus pés.
Corri para perto da água e ensaiei por algum tempo molhar os pés. Tomei coragem e vi que também estava quente. Comecei a brincar de chutar e me molhar com a água que espirrava. Por que não andar um pouco mais, até a água bater na minha canela? Um, dois, três passos e pronto, um buraco. Certo, eu estava com água pela minha cintura, mas não havia correnteza. Era como uma grande piscina de água salgada e morna. Mergulhei, para molhar minha cabeça e me livrar do calor. Esse era o pretexto, mas a verdade era que eu queria mesmo brincar na água. A escuridão e o silêncio não me incomodavam, na verdade me acolhiam.
Lá estava eu, rindo e brincando como um caipira na praia (!) quando notei a figura parada a pouco mais de um metro de mim, na areia. Imediatamente me coloquei de pé e qualquer traço de felicidade desapareceu do meu rosto. Senti medo, mas logo depois lembrei que estava a menos de dez metros do meu pai. Ele me ouviria gritar.
- Calma, - o moço falou, me mostrando as palmas como um bandido rendido – eu não quis te assustar. Eu só precisava ver de perto.
Caminhei com passos duros para fora da água, o vestido encharcado colado no meu corpo e pesado me tirava um pouco o equilíbrio. Era o moço bonito de novo. Estava enganada então: ele não sorria pra mim, mas sim de mim. Isso me deixou irritada e um pouco ofendida.
- O show acabou – disse com aspereza.
- Nossa – ele coçou a cabeça, sem jeito – eu não quis te ofender também. É que eu te ouvi hoje mais cedo e fiquei com a sua risada na cabeça a tarde toda. Quando ouvi de novo precisava ver que cara tinha a sua risada.
Parei a alguns passos de distância com os braços cruzados e uma expressão desconfiada. Ele parecia um daqueles caras que aparecem nos sonhos em que fazemos cruzeiros pelas ilhas gregas. O cabelo escuro e bem curto não tirava a atenção da forma fantástica como seus ossos desenhavam o rosto mais perfeito que eu já tinha visto até então. As sobrancelhas grossas e a barba por fazer davam a ele um ar selvagem, mas as roupas diziam o contrário. A camisa branca sobre o peito bem definido era bem passada e a bermuda cáqui também. Parecia um modelo em um editorial de verão. Aquele sorriso sincero acabou por me desarmar. Eu queria que ele me colocasse no bolso e me levasse embora, porque eu me sentia pequena demais perto de tanta perfeição. Senti que meu coração batia tão forte e tão alto que talvez até ele pudesse ouvir, então respirei fundo e disse quase num sussurro:
- É a minha primeira vez aqui.
Imediatamente pensei na infinidade de frases melhores que eu poderia ter dito e comecei a me chicotear mentalmente.
- É mesmo? – ele caridosamente alimentou a conversa
- Eu vim com meu pai – quantos anos ele teria? Vinte, no máximo. Seis anos é muito tempo? Ah, praticamente cinco. Cinco anos não é nada. Bom, mas provavelmente existe uma vida inteira de experiências nos separando. Ai sim, até seis meses é muito tempo. De qualquer forma a última frase fez ele ter certeza de que eu acabei de sair do maternal. Que coisa imbecil para se dizer...
- Ele escolheu o lugar? Uma boa escolha. Eu sou o Fernando, por falar nisso – ele me estendeu a mão e eu apertei sem soltar o outro braço do corpo. Apesar de estar arrepiada do que deveria ser frio, estava morrendo de calor.
- Elisa. Desculpa o mau jeito. Eu não sou tão malcriada normalmente.
- E como você é normalmente?
- Como? – que raio de pergunta era aquela? Ele era analista, por acaso? – Acho que sou calada normalmente, mas muito falante com meus amigos.
- Duas pessoas diferentes, então?
- Acho que sim...
- Então posso te pedir um favor? –assenti lentamente com a cabeça, temendo que se balançasse rápido demais ele desapareceria como em um devaneio – Seja minha amiga. Quero e ouvir falar.
Meu queixo caiu alguns centímetros. Ele queria me ouvir falar. Eu queria morrer naquele momento, pois tinha certeza de que a vida não podia ficar melhor. Ele devia ser um serial killer, um ricaço excêntrico, algo do tipo. Não era normal um homem lindo daquele sair pedindo para ser amigo das pessoas.
- Tá... – ele sorriu e eu sorri um sorriso besta em retorno.
- Então eu vou deixar você se secar e te espero para conversarmos um pouco mais, pode ser?
- Tá...
- Não demore!
Corri para dentro da casa inconformada. Meu pai ainda estava dormindo na rede e não parecia querer acordar. Entrei no quarto ainda chocada e vesti rapidamente uma bermuda branca que parecia com algo que se usa na praia e uma blusa verde que me fazia parecer mais magra. Prendi o cabelo com o elástico e corri para a praia, com medo de ter tomado sol demais e estar tendo devaneios. Felizmente, insanidade não era o meu problema. Talvez o meu sorriso bobo fosse. Ele estava parado exatamente onde eu o havia deixado, lindo e perfeito sob o luar. Já havia lido sobre aquilo, sobre a mágica do momento, mas é algo que não se pode descrever. Dominei o nervosismo e caminhei em sua direção lentamente, pois não queria parecer muito afobada. Apesar disso, estava ofegante tão logo ele sorriu pra mim.
- Desculpa te fazer esperar.
- Imagina, você foi bem rápida. Eu esperaria muito mais.
Senti meu rosto corar e quis me esconder dentro da camiseta. E se ele estivesse todo fraternal – ou mesmo paternal – pra cima de mim e eu lendo todos os sinais da forma errada?
- Então, você também está visitando?
- Acho que posso dizer retornando – ele sentou na areia e eu o imitei – Estava com uma amigos da faculdade, mas eles foram embora não faz muito tempo.
- E por que você ficou?
- Ah, não sei dizer direito – ele olhava para o mar enquanto falava e eu fazia o máximo para não encarar demais. Era difícil, porque eu queria memorizar cada centímetro do seu rosto – É que eu consegui esse emprego que vai tomar muito do meu tempo, então não sei se vou conseguir voltar tão cedo. Queria me despedir apropriadamente. E você veio arrastada pelo seu pai?
- É – eu ri sem jeito e comecei a encarar meus joelhos quando ele olhou pra mim – Foi uma surpresa. Uma boa surpresa, eu acho. É que eu nunca gostei muito de praia, sabe? Mas esse lugar...
- Eu sei. É diferente. Ainda assim eu conheço pessoas que não gostam daqui, sabia?
- Que coisa! Bom, toda unanimidade é burra, não? Então é melhor que alguns discordem.
- É um jeito de ver as coisas. Acho que é muito pessoal, que funciona com cada um de um jeito diferente. Como foi pra você?
- Ah, acho que foi a coisa da casa na praia. O conjunto todo. Parecia que alguém sonhou com esse lugar e ele simplesmente se materializou. E você?
- É um pouco mais complicado, ou talvez seja até mais simples. A parte simples é que minha irmã tem uma pousada aqui. Ter um lugar pra ficar é parte do magnetismo.
- E por que é complicado?
- Veja, minha família não é lá muito normal, por assim dizer. Mas pra resumir, foi um desejo de minha mãe que viéssemos pra cá. Ela cresceu aqui.
- Então você veio arrastado pela sua mãe?
- É, algo do tipo. Mas eu era bem mais novo do que você, então ninguém teve essa conversa comigo quando cheguei.
- E como é morar na praia? Você nunca enjoa?
- Ah, teve vezes que eu quis ir embora sim. Não tem muita coisa pra se fazer que não envolva turismo, e essa não é a minha praia. Então sempre que me sentia encurralado eu pegava a balsa, mas me arrependia no meio do caminho e voltava na mesma balsa. Então, quando eu realmente tive que ir embora só pensava em voltar.
- Que coisa! Meu maior desejo sempre foi escapar de onde eu vivo.
- E onde é isso?
- Uma cidadezinha bem longe daqui, quase no Mato Grosso. Não tem absolutamente nada por lá.
- Eu sei bem como é. E por que você quer tanto ir embora?
- Sei lá, acho que eu já cresci o suficiente para aquela cidade. Acho que preciso de mais. Mas eu morro de medo que dê tudo errado e eu precise voltar.
- E o pior é que só quando a gente volta pode perceber que as coisas não são mais as mesmas, sabe? O tempo passa, a cidade muda...
- ...e você também muda.
Ele me olhou e sorriu, parecendo feliz por eu ter entendido a idéia. Meu corpo reagiu de uma forma estranha, me fazendo sentir como se meu estômago tivesse afundado dentro de mim. Apesar do calafrio que subiu pela minha nuca, senti que estava começando a transpirar e segurei a respiração. Parecia medo, mas medo do que? Tudo o que ele fez foi olhar diretamente pra mim. Tantas músicas tocaram ao mesmo tempo na minha cabeça que eu não consegui identificar nenhuma. Estava confusa e, por causa disso, apavorada. Quando meus ouvidos começaram a apitar comecei a soltar o ar lentamente e então entendi: eu queria desesperadamente beijá-lo. Que bobagem! Isso estava no topo da lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Você está calada já faz muito tempo. Em que está pensando?
Não parecia uma boa idéia contar a verdade.
- Ah, nada de mais. É só que isso tudo é muito estranho, sabe?
- Isso tudo?
- É. Estar aqui nesse lugar vazio conversando com um desconhecido. Não me entenda mal, você é muito legal. Acho que o problema é comigo. Eu não sei como me comportar perto de gente que eu não conheço.
- Ah, você é tímida?
- Não, acho que não. Sou anti-social mesmo.
- Se vamos ser amigos você tem que se socializar comigo. E é isso que estamos fazendo. Não se preocupe, está indo muito bem. Você vai se sentir melhor se eu te contar um segredo sobre mim?
- Não sei, mas agora eu quero ouvir!
- Espertinha! – ele limpou a garganta e se aproximou um pouco, para falar quase num sussurro – Quando eu tenho insônia, a única coisa que me ajuda a dormir é deitar debaixo da cama.
- Debaixo da cama? – devo ter falado alto demais, porque ele logo me silenciou com um “shh” – Que coisa mais esquisita! Leite morno não funciona?
- Não.
- Um CD do Kenny G?
- Eu nunca tentei, talvez funcione – ele respondeu entre risadas – Agora você me conta um segredo seu. De preferência um bem cabeludo.
- Deixe-me pensar. Ah, já sei. Ninguém sabe, mas minha vida tem uma trilha sonora.
- Como assim?
- O tempo todo eu tenho uma música na minha cabeça para acompanhar cada momento, como em um filme.
- Você tem vozes na sua cabeça?
- Não, não é como se eu fosse completamente maluca. É mais como se eu tivesse fones de ouvido permanentes e um set list perfeito para cada ocasião.
- E como é isso?
- É bem legal, na verdade. Com meu pai quase sempre tenho uma música do Elvis na cabeça. Com o Bernardo ouço bastante Beatles. Quando eu entro em um carro para viajar sempre vem “Road tripping”, é inevitável. Do mesmo jeito que toda vez que eu caio em Copacabana no Banco Imobiliário eu tenho que cantar “Sábado em Copacabana”. As pessoas ficam irritadas com isso, mas é divertido.
- E você ainda tem coragem de dizer que meu jeito de dormir é esquisito?
- Eu nunca disse que era uma menina comum.
- E eu nunca achei que você fosse.
Quando ele disse até pareceu um elogio, e talvez fosse mesmo. Minha risada boba surgiu novamente e ele me encarou com um sorriso. Talvez ele gostasse mesmo da minha risada. Talvez alguém mais gostasse dela. Mas quando sua mão tocou a minha por acidente, senti meu estômago se revirar. Devo ter transparecido o mal estar, pois ele ficou muito sério e guardou as mãos nos bolsos.
- Mas agora você vai ter que me contar o que você está ouvindo ai dentro da sua cabeça.
Essa não era uma informação que eu quisesse passar. Shakira cantava bem alto “Antologia” e “Underneath your clothes”, seguida de “Head over feet” da Alanis Morissete e The Corrs com “What can I do”. Um pouco antes que Britney Spears ou outra do tipo aparecesse com mais uma balada de adoração a um rapaz aparecesse todas as outras se calaram e eu ouvi “Hoje a noite não tem luar”, o clássico do amor juvenil no litoral. Senti vergonha de mim mesma e pensei que a adolescência era um ponto negativo na minha vida. Mas então “Can’t help falling in Love” começou e eu decidi que precisava para imediatamente de me encantar por aquele cara.
- Sinto muito, mas esse é um dos itens da minha lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Uma hora dessas você vai me contar, eu sei.
- O que te faz ter tanta certeza?
- É inevitável. Quando eu te cativar, você vai querer me contar.
- Me cativar?
- Sim, como no livro.
- Então eu sou a raposa?
- Eu acho que sim, não tem outro jeito. Você já me cativou.
Senti o ar sumir dos meus pulmões e minhas pernas amoleceram. Eu queria correr e enfiar minha cabeça no buraco da fronha e só sair de lá quando já tivesse idade para dirigir, mas não conseguia me mexer. Meu estômago parecia me ancorar ali onde estava sentada. Talvez meu cérebro tivesse sido afetado também, porque eu não consegui pensar em nada inteligente para dizer.
Novamente muito caridoso, Fernando quebrou o silêncio enquanto usava meu ombro como apoio para se levantar:
- Mas não se preocupe, a raposa cedeu, eventualmente. Então você vai acabar me contando.
Ele segurou minhas mãos e me ajudou a ficar de pé, coisa que achei muito perigosa, pois o simples fato de segurar minhas mãos já me fazia perder a firmeza nas pernas. Ele me ajudou a manter o equilíbrio e continuou segurando minhas mãos:
- Eu tenho que ir agora. A pousada não é muito perto daqui.
- Mas você não vai embora, vai? – o desespero na minha voz era notável - Tipo, embora daqui?
- Não, ainda não – ele me confortou com um sorriso – Eu tenho que ver você amanhã, não é? Então, até amanhã!
Ele me deu um beijo no rosto e soltou minhas mãos com cuidado, em direção ao escuro caminho que levava para a rua. Fiquei estática por um tempo e só quando ele estava quase desaparecendo consegui dizer fracamente “até”. Levei a mão ao rosto e me senti arder. Estava febril, com certeza. Sentei novamente na areia e fiquei um tempo sem me mexer, apenas segurando a minha bochecha e encarando a água. Então deixei meu corpo cair e comecei a encarar o céu, ainda meio letárgica. Pouco depois meu pai apareceu no meu campo de visão e fiquei feliz por ter alguém me dizendo que era hora de tomar banho e ir para a cama. Eu não conseguiria sair daquele estado por conta própria.
Então mecanicamente me lavei e me acomodei na cama, morrendo de medo de acordar e descobrir que ainda estava em Celeste, que meu pai não tinha decidido me levar para o lugar mais bonito do mundo e que eu ainda era a menina baixinha, gordinha e indesejável que sempre acreditei ser – até aquela noite.
Nossa relação sempre foi boa e eu não sentia que precisava de mais atenção, carinho ou dinheiro. Bom, talvez dinheiro, mas eu não era de pedir. Eu era independente? Sim. Ele passava muito tempo fora? Sim. Ele foi praticamente ausente na primeira metade da minha vida? Também. Mas quando decidiu assumir o papel de pai, ele fez isso muito bem. Tão bem quanto ele poderia. Se eu pudesse usar uma palavra para descrever meu pai, seria distraído.
Todas as vezes que eu tinha um compromisso e ele se atrasava para me buscar ou não aparecia, eu sabia que não era por mal. Ele perdia a noção do tempo com muita facilidade e esquecia as coisas. Foi com esses argumentos que ele começou aquela conversa muito estranha no sábado, quando chegou.
- Sabe, Elisa, eu achei que teríamos mais tempo juntos.
- Mais tempo?
- É. Nunca me passou pela cabeça que você quisesse ir embora.
- Eu já falei que...
- Eu sei, eu sei. Acontece que eu não vi o tempo passar. Sinto muito, eu não vi mesmo. Um dia eu chego aqui e você é uma menininha esperta demais para sua idade, no outro você já está no colegial e daqui a pouco vai querer ter a sua casa, o seu carro e a sua vida.
- Normal, né?
- Normal, sim. Mas é também muito triste. Por isso decidi recuperar o tempo perdido.
- Pai, o que é que você está pretendendo?
- Nós vamos viajar, só eu e você. Tirei o resto do mês de férias. São duas semanas, mas vamos fazer o máximo com isso.
Meu queixo caiu alguns centímetros com aquela notícia. Viajar? Não era o melhor momento, definitivamente. As aulas começariam na segunda semana de fevereiro, antes do carnaval. Não havia tempo para viagens, com uma Marcela grávida do outro lado da rua.
- Pai, de verdade, não precisa. Sabe, eu não vou morrer, só vou estudar.
- Mas você vai crescer! – ele gritou, exaltado – Vamos fazer isso sem brigas, ok? Por favor.
Fiquei olhando para aquela pessoa que eu percebi não conhecer tão bem assim. Eu sabia dos seus horários, dos seus hábitos, dos seus gostos, mas eu nunca tinha entrado na cabeça do meu pai. Não sabia como ele se sentia, o que pensava. Eu sabia que ele era meu fã número um, como ele mesmo dizia, mas não fazia idéia do quanto ele se importava. Isso me fez pensar no quanto eu me importava. Estava tão desesperada para ir embora que não pensei no quanto eu queria ficar, no quanto me doeria partir. Como seria a vida dali por diante? Como seria ir para uma cama estranha sabendo que meu pai não iria me dar um beijo de boa noite? Ele não me acordaria pela manhã com aquele irritante tapa nos pés e não elogiaria o meu café. Nós não assistiríamos mais CSI juntos, então não apostaríamos mais no assassino. Ele não me carregaria para a cama quando eu adormecesse no meio de uma das nossas maratonas de filmes. Ele estava certo, não faríamos mais parte da vida um do outro. Não do cotidiano, pelo menos. Eu sabia do seu esforço, sabia de tudo que tinha desistido para estar comigo. Perder tudo o que batalhamos para construir seria muito desolador.
- Acho que vamos viajar então – eu disse com a voz embargada – Que tipo de mala eu devo arrumar para nós dois?
- Vamos a La playa! – ele cantarolou hilariamente. Era meu pai, só meu. O pior foi a bendita música que grudou na minha cabeça.
E estrada prometia ser longa e cansativa, mas ele me surpreendeu com a notícia de que não iríamos de carro.
- Como assim, um helicóptero? Você está torrando a poupança da faculdade nessa viagem?
- Um amigo me devia um favor.
- Um amigo?
- É, pare de ser curiosa! Não está emocionada?
A palavra era aterrorizada. Até onde eu me lembrava, altura e abelhas estavam no topo da lista de coisas que me faziam tremer. Enquanto o taxi nos levava para uma fazenda próxima onde o bicho voador aguardava, eu ia fazendo minhas orações só por precaução.
A viagem, que deveria ter sido maravilhosa, foi tão emocionante quanto o fundo da minha mochila. Passei o tempo todo procurando alguma coisa imaginária dentro da mala para não ter que olhar pela janela ou para qualquer outro lugar que me mostrasse a qual distância que estávamos do chão. As poucas vezes que me arrisquei a espiar, senti meu estômago se transformar em um tijolo e tive aquela incômoda sensação de estar caindo. Não foi nada agradável. Tentei me concentrar nas músicas que tocavam no fone de ouvido e ignorar o resto.
Finalmente no chão - meu tão adorado chão – agradeci aos céus por ter sobrevivido e senti o suor começar a secar na minha testa e em minhas mãos.
- Você está horrível, Elisa. Verdade
- Eu acredito em você, pai.
Por mais que fosse um comentário exagerado, ficar ao lado dele não melhorava minha imagem. Ele parecia realizado, lindo com seus óculos escuros e sua camisa branca. Talvez minha mãe não fosse tão bonita, talvez eu me parecesse com ela. Só podia ser porque, verde como eu estava, não havia semelhança nenhuma com aquele moço de pé ao meu lado, além da cor dos cabelos.
- E agora? A gente acampa aqui embaixo do helicóptero?
- Só se você quiser, eu tenho um lugar melhor para ficar.
No carro fui observando a paisagem procurando descobrir o nome do lugar. EU me lembrava vagamente das minhas visitas ao litoral, sempre na Praia Grande ou São Vicente. Gostava muito da primeira, por causa da areia fina e quentinha, onde eu brincava de bife à milanesa. Cansada de procurar por um ônibus que dissesse “prefeitura de...”, comecei a pensar nos dias que viriam. Quando se é criança a gente só precisa de água e de outras crianças para se divertir na praia. Isso e sorvete. Mas o que será que gente adulta fazia na praia? Certamente não me encontrariam por ai jogando frescobol. E nem o meu pai fazendo longas caminhadas pela beira do mar. Uma coisa sabíamos fazer muito bem: comer. Talvez fosse a nossa salvação. Comeríamos dia e noite por duas semanas ou até explodirmos, o que viesse primeiro. Legal...
- Chegamos!
“Finalmente” pensei, já enjoada de viajar. O sol estava alto e quente, o dia estava lindo. E nós estávamos parados em frente a uma simpática casa branca, cheia de plantas. Sim, eu cheguei a pensar que houvesse mais plantas do que paredes. Fiquei preocupada que o os donos da casa fossem dois grilos enormes, verdes e nojentos. Apesar disso, era um lugar muito bonito e uma rua muito estreita. Do outro lado havia um morro com muita vegetação. Ao menos era calmo. “Impossível estarmos próximos da água”, foi meu segundo pensamento enquanto ajudava a descarregar as malas. Até onde eu sabia, toda praia tinha uma avenida chamada beira-mar. Não que meu senso de direção fosse bom.
- Você vai gostar daqui – ele abriu o portãozinho branco e entramos na mata atlântica que era aquele quintal – é um lugar mágico.
- Mágico? O que tem de mágico? Uma joaninha gigante?
- Você vai ver.
Subimos uma escada até a varanda de cimento queimado vermelho. Era rústico, mas muito bonito. Uma brisa morna começou a soprar e fechei meus olhos. Uma sensação boa percorreu meu corpo. Mal podia esperar para tirar meus sapatos e pisar naquele chão geladinho. Ouvi o som da porta destrancando e me virei para entrar. Meu queixo despencou alguns centímetros. Atrás da porta havia uma sala enorme, com três ambientes. Não foram os móveis lindos e nem o piso coberto com tábuas largas de madeira clara que me fizeram soltar as malas no chão, mas sim a porta dupla de vidro que separava a sala do outro quintal, iluminando todo o lugar. Atrás da porta, um gramado verde com um caminho de pedras que levavam a uma cerca branca de madeira, como nos filmes. Atrás da cerca, a areia branca, fina e o mar, verde em todo o seu esplendor.
- Pai...
- Eu sei. É mágico, como eu disse.
- É lindo.
A sala tinha grandes janelas com cortinas brancas e finas. Na parede sem janelas tinha uma grande estante com televisão, e dois sofás cor de areia muito fofos e ainda um tapete branco peludo. Sob a luz da porta, duas poltronas verdes e uma mesa de café na mesma cor do chão tinham sido posicionadas para ter uma boa visão do quintal e da praia, próximas a uma grande mesa de jantar. Era realmente muito diferente da minha casa.
- O que você quer fazer? Comer? Ver o resto da casa? Comer? Se trocar?
- Estou com fome sim, mas quero ver o meu quarto e trocar de roupa. Por favor?
Subimos uma escada entre a sala e a cozinha e chegamos a um corredor com cinco portas. Escolhemos os dois quartos com vista para o mar. Imaginei como seriam as minhas manhãs assistindo o sol nascer.
O quarto seguia a temática da casa, com a madeira clara, as paredes e cortinas brancas. A cama de casal ficava ao lado da janela e um charmoso armário na parede oposta. De frente para a cama, uma penteadeira com um espelho. Desejei que aquele decorador tivesse passado pelo meu quarto. Coloquei a mala sobre a colcha florida e abri a janela. “Lindo” foi só o que consegui pensar.
Assim que terminei de ocupar cada gaveta do lugar e saciar a minha neurose, coloquei um vestido azul claro estampado e uma sapatilha vazada. A coisa que eu mais detestava das praias era a necessidade de estar descalça o tempo todo. Tinha horror a pés.
Quando eu desci, meu pai me esperava junto á porta da varanda. Com a cabeça no portal ele parecia tão distante que me perguntei se estaria em outro lugar ou em outro tempo. Ao notar minha presença, segurou minha mão e me guiou até a praia. Eu me sentia caminhando em câmera lenta ao som de “Can’t help falling in Love”. Nós dois sorriamos, bestificados com o lugar. A areia era clara e fina, quente demais para pés descalços. A casa ficava no lado esquerdo da praia, próxima a um regato e ao píer. A brisa morna voltou a soprar sob o sol forte e eu comecei a suar. Estava quente demais. Talvez eu estivesse usando roupas demais. Olhei para o outro lado e vi que não estava em uma praia infinita como as que já tinha visitado. Estava praticamente vazia, só um par de senhoras escondidas debaixo do guarda-sol e de chapéus de palha, estrategicamente posicionadas próximas ao carrinho de batidas estacionado perto de um muro baixo de pedras. Não vi um quiosque e muito menos a rua.
- A praia é fechada, pai?
- Ah, quase. A entrada fica meio escondida, naquele pedaço de terra entre a montanha e o muro. Ali, na frente do píer, fica a propriedade de um cara muito rico, dono de uma rede de lojas materiais de construção. A lancha parada é dele também, mas outras pessoas por aqui chegam pelo mar.
- Só aquele caminho ali?
- Exato. E não tem quisque também.
- E nem ondas – observei – o mar é muito calmo aqui.
- É porque estamos voltados para o continente. Nas praias que dão para o mar tem bastante onda.
- Continente?
- É. Você não sabe onde está?
- Numa ilha do Pacífico Sul?
- Em Ilhabela, sua boba. Na praia da Feiticeira. É uma das mais badaladas durante a temporada.
- Feiticeira?
- Isso mesmo. Top top.
- Agora entendi a coisa da mágica – ele sorriu em resposta e respirou o ar salgado e quente da praia – Agora a gente pode comer, se você quiser.
Talvez fosse dispensável dizer, mas ele quis me levar a um restaurante de frutos do mar. Achei relevante, porque foi a primeira vez que entramos em um restaurante que não envolvia comida italiana ou rodízio de carnes. Rodando pela ilha vi todo o tipo de praia – desde aquelas que têm barcos atracados até aquelas com criancinhas correndo atrás do carrinho de sorvete. Senti uma vontade enorme de explorar seguida de uma vontade enorme de alguém que me acompanhasse nas minhas expedições. Não deixei que isso transparecesse, já que meu pai fazia tanta questão de que passássemos tempo juntos. “Ele certamente pensou em como fazer o tempo passar”, pensei. Sem o nervosismo ocupando meu estômago, a fome falou mais alto e todos os meus pensamentos giraram em torno de comida até um pouco depois da refeição. Então, de bucho cheio e exausta da viagem, meus pensamentos começaram a girar em torna na minha cama e de um ventilador.
Quando acordei, o sol estava baixo, preparando o crepúsculo. Imediatamente pensei na palavra crepúsculo e como ninguém a usava. Lembrei daquela música do grupo “The Platters” que começava “When the twilight is gone (ah, ahh, ahhhh) and no songbirds are singing (ahhhhh)” e comecei a rir como uma boba debruçada na janela. Já começava a sentir fome de novo, mas não podia manter essa dieta se quisesse caber no uniforme que meu pai tinha encomendado. Enquanto tentava me imaginar dentro do uniforme que tinha visto na brochura, a imagem do meu pai com o cabelo repartido de lado e cheio de gel voltou a minha cabeça, junto com a imagem de meu tio Osvaldo com cabelo. Era muito estranho. Talvez os bigodes enormes que ele usava servissem para compensar a falta que o cabelo fazia. Isso, cabelo na cabeça, não importa o lugar. Mais uma risada besta pela janela, assistindo a água mudar de cor. Talvez tenha sido alta demais, porque um moço que estava agachado perto do portão olhou para trás. Entrei em pânico quando ele olhou direto pra mim e senti meu rosto queimar. Não estava acostumada com gente olhando pra mim. O sorriso se desmanchou em uma cara assustada e logo me endireitei, mexendo na cortina para disfarçar. Ótimo disfarce. Quando olhei de novo para o moço ele sorriu. Imediatamente dei três passos para trás fugindo do campo de vista. Não estava acostumada a receber sorrisos.
Não é como se eu ligasse para quando riam de mim. Estava acostumada a isso. Conhecia pessoas que esperavam ansiosamente que eu gaguejasse durante uma leitura em voz alta, que tropeçasse em uma carteira no caminho para a lousa ou que tomasse uma bolada em cheio na aula de educação física. Eles queriam que eu desse algum motivo para rir, o que me obrigou a ser extremamente cuidadosa na escola. Mas isso não foi suficiente. Começaram a caçoar do som da minha voz, da forma como eu erguia a mão desesperada para responder qualquer pergunta, dos meus cabelos sempre presos em um rabo de cavalo embaraçado, da minha jaqueta azul, do fato de eu nunca ter beijado ninguém. Minha existência era motivo de chacota naquele lugar. Eu sempre fiz um bom trabalho ignorando as risadinhas às minhas costas, mas não era de ferro. Nos piores dias, chegava em casa, apagava todas a luzes, me escondia debaixo do edredom e chorava alto ao som de alguma música que me deixava muito triste. No topo da lista “All by myself”, “I should have known better”, “Fake plastic trees”, “Teatro dos vampiros” e qualquer uma do Evanescence. Depois de algumas horas no fundo do abismo eu estava de pé e pronta para jantar.
A coisa é que o moço não estava rindo de mim, ele estava sorrindo pra mim. E não era um moço velho e feio. Se fosse, eu certamente teria sorrido de volta e acenado. Ele era lindo e jovem. E eu tinha o mal hábito de sempre sonhar e fantasiar com o menino mais fora de alcance que eu conhecesse, por isso ao invés de sorrir, acenar e ser charmosa para compensar minha risada esquisita, eu tive que agir como a esquisita que sou. Quando estou despreparada, pessoas bonitas tendem a quebrar minhas pernas. E eu insisto em me torturar revivendo repetidas vezes o momento constrangedor, com direito a suspiros inconformados de “nossa...” e “ai, meu Deus”
- Por que você está tão corada? – ele perguntou enquanto jantávamos e eu balançava a cabeça, murmurando xingamentos para mim mesma - A gente mal ficou no sol!
- Por nada, pai – e fiquei mais vermelha com a memória, levantando da mesa apressada – É o calor.
- Aqui você deve usar muito repelente, é cheio de borrachudos. E faça o favor de ligar o repelente na tomada se for dormir com a janela aberta.
- Pode deixar.
Apoiei os cotovelos no peitoril da janela e apoiei o queixo em minhas mãos e comecei a imaginar como seria o mundo se eu fosse um pouco mais auto-confiante e não deixasse que meu próprio julgamento me massacrasse o tempo todo. Se eu conseguisse encontrar alguma beleza atrás das minhas olheiras e além dos meus culotes. Se eu conseguisse gostar de alguma coisa em mim além do meu gosto para filmes e da minha habilidade de ouvir as pessoas. Um medo tomou conta de mim e senti um calafrio correr na minha espinha. Como eu poderia sobreviver naquele lugar? Como eu poderia passar os dias me comparando e competindo contra aquelas meninas cheias de dinheiro e senso de moda? Elas deviam ser magras e bonitas. Eu seria a mais inteligente. E desde quando a inteligência é suficiente para tornar alguém popular? Em que universo Fabrício ia querer namorar comigo olhando para meu boletim? Eu não era loira, não tinha cabelo liso, não era alta e nem magra. Tudo estava contra mim, inclusive eu mesma. Teria que passar os próximos três anos como tinha passado os últimos quatro: em silêncio e no canto da sala.
Com o corpo amolecido pelo calor e por meus pensamentos, me arrastei para fora do quarto, com a intenção de ver o mar de perto. Ainda não tinha me molhado. Deixei meu pai adormecido na rede na varanda e fui pulando o caminho de pedras até chegar à areia. Para a minha surpresa, ainda estava quente. Apesar de nenhum poste iluminar a praia, a noite estava muito clara. O luar que apaga as estrelas enchia o lugar. Era realmente impossível não se apaixonar por aquele lugar. Talvez eu devesse me mudar para o litoral. A vida parecia muito melhor naquela praia vazia onde ninguém ia ficar reparando nos meus pés.
Corri para perto da água e ensaiei por algum tempo molhar os pés. Tomei coragem e vi que também estava quente. Comecei a brincar de chutar e me molhar com a água que espirrava. Por que não andar um pouco mais, até a água bater na minha canela? Um, dois, três passos e pronto, um buraco. Certo, eu estava com água pela minha cintura, mas não havia correnteza. Era como uma grande piscina de água salgada e morna. Mergulhei, para molhar minha cabeça e me livrar do calor. Esse era o pretexto, mas a verdade era que eu queria mesmo brincar na água. A escuridão e o silêncio não me incomodavam, na verdade me acolhiam.
Lá estava eu, rindo e brincando como um caipira na praia (!) quando notei a figura parada a pouco mais de um metro de mim, na areia. Imediatamente me coloquei de pé e qualquer traço de felicidade desapareceu do meu rosto. Senti medo, mas logo depois lembrei que estava a menos de dez metros do meu pai. Ele me ouviria gritar.
- Calma, - o moço falou, me mostrando as palmas como um bandido rendido – eu não quis te assustar. Eu só precisava ver de perto.
Caminhei com passos duros para fora da água, o vestido encharcado colado no meu corpo e pesado me tirava um pouco o equilíbrio. Era o moço bonito de novo. Estava enganada então: ele não sorria pra mim, mas sim de mim. Isso me deixou irritada e um pouco ofendida.
- O show acabou – disse com aspereza.
- Nossa – ele coçou a cabeça, sem jeito – eu não quis te ofender também. É que eu te ouvi hoje mais cedo e fiquei com a sua risada na cabeça a tarde toda. Quando ouvi de novo precisava ver que cara tinha a sua risada.
Parei a alguns passos de distância com os braços cruzados e uma expressão desconfiada. Ele parecia um daqueles caras que aparecem nos sonhos em que fazemos cruzeiros pelas ilhas gregas. O cabelo escuro e bem curto não tirava a atenção da forma fantástica como seus ossos desenhavam o rosto mais perfeito que eu já tinha visto até então. As sobrancelhas grossas e a barba por fazer davam a ele um ar selvagem, mas as roupas diziam o contrário. A camisa branca sobre o peito bem definido era bem passada e a bermuda cáqui também. Parecia um modelo em um editorial de verão. Aquele sorriso sincero acabou por me desarmar. Eu queria que ele me colocasse no bolso e me levasse embora, porque eu me sentia pequena demais perto de tanta perfeição. Senti que meu coração batia tão forte e tão alto que talvez até ele pudesse ouvir, então respirei fundo e disse quase num sussurro:
- É a minha primeira vez aqui.
Imediatamente pensei na infinidade de frases melhores que eu poderia ter dito e comecei a me chicotear mentalmente.
- É mesmo? – ele caridosamente alimentou a conversa
- Eu vim com meu pai – quantos anos ele teria? Vinte, no máximo. Seis anos é muito tempo? Ah, praticamente cinco. Cinco anos não é nada. Bom, mas provavelmente existe uma vida inteira de experiências nos separando. Ai sim, até seis meses é muito tempo. De qualquer forma a última frase fez ele ter certeza de que eu acabei de sair do maternal. Que coisa imbecil para se dizer...
- Ele escolheu o lugar? Uma boa escolha. Eu sou o Fernando, por falar nisso – ele me estendeu a mão e eu apertei sem soltar o outro braço do corpo. Apesar de estar arrepiada do que deveria ser frio, estava morrendo de calor.
- Elisa. Desculpa o mau jeito. Eu não sou tão malcriada normalmente.
- E como você é normalmente?
- Como? – que raio de pergunta era aquela? Ele era analista, por acaso? – Acho que sou calada normalmente, mas muito falante com meus amigos.
- Duas pessoas diferentes, então?
- Acho que sim...
- Então posso te pedir um favor? –assenti lentamente com a cabeça, temendo que se balançasse rápido demais ele desapareceria como em um devaneio – Seja minha amiga. Quero e ouvir falar.
Meu queixo caiu alguns centímetros. Ele queria me ouvir falar. Eu queria morrer naquele momento, pois tinha certeza de que a vida não podia ficar melhor. Ele devia ser um serial killer, um ricaço excêntrico, algo do tipo. Não era normal um homem lindo daquele sair pedindo para ser amigo das pessoas.
- Tá... – ele sorriu e eu sorri um sorriso besta em retorno.
- Então eu vou deixar você se secar e te espero para conversarmos um pouco mais, pode ser?
- Tá...
- Não demore!
Corri para dentro da casa inconformada. Meu pai ainda estava dormindo na rede e não parecia querer acordar. Entrei no quarto ainda chocada e vesti rapidamente uma bermuda branca que parecia com algo que se usa na praia e uma blusa verde que me fazia parecer mais magra. Prendi o cabelo com o elástico e corri para a praia, com medo de ter tomado sol demais e estar tendo devaneios. Felizmente, insanidade não era o meu problema. Talvez o meu sorriso bobo fosse. Ele estava parado exatamente onde eu o havia deixado, lindo e perfeito sob o luar. Já havia lido sobre aquilo, sobre a mágica do momento, mas é algo que não se pode descrever. Dominei o nervosismo e caminhei em sua direção lentamente, pois não queria parecer muito afobada. Apesar disso, estava ofegante tão logo ele sorriu pra mim.
- Desculpa te fazer esperar.
- Imagina, você foi bem rápida. Eu esperaria muito mais.
Senti meu rosto corar e quis me esconder dentro da camiseta. E se ele estivesse todo fraternal – ou mesmo paternal – pra cima de mim e eu lendo todos os sinais da forma errada?
- Então, você também está visitando?
- Acho que posso dizer retornando – ele sentou na areia e eu o imitei – Estava com uma amigos da faculdade, mas eles foram embora não faz muito tempo.
- E por que você ficou?
- Ah, não sei dizer direito – ele olhava para o mar enquanto falava e eu fazia o máximo para não encarar demais. Era difícil, porque eu queria memorizar cada centímetro do seu rosto – É que eu consegui esse emprego que vai tomar muito do meu tempo, então não sei se vou conseguir voltar tão cedo. Queria me despedir apropriadamente. E você veio arrastada pelo seu pai?
- É – eu ri sem jeito e comecei a encarar meus joelhos quando ele olhou pra mim – Foi uma surpresa. Uma boa surpresa, eu acho. É que eu nunca gostei muito de praia, sabe? Mas esse lugar...
- Eu sei. É diferente. Ainda assim eu conheço pessoas que não gostam daqui, sabia?
- Que coisa! Bom, toda unanimidade é burra, não? Então é melhor que alguns discordem.
- É um jeito de ver as coisas. Acho que é muito pessoal, que funciona com cada um de um jeito diferente. Como foi pra você?
- Ah, acho que foi a coisa da casa na praia. O conjunto todo. Parecia que alguém sonhou com esse lugar e ele simplesmente se materializou. E você?
- É um pouco mais complicado, ou talvez seja até mais simples. A parte simples é que minha irmã tem uma pousada aqui. Ter um lugar pra ficar é parte do magnetismo.
- E por que é complicado?
- Veja, minha família não é lá muito normal, por assim dizer. Mas pra resumir, foi um desejo de minha mãe que viéssemos pra cá. Ela cresceu aqui.
- Então você veio arrastado pela sua mãe?
- É, algo do tipo. Mas eu era bem mais novo do que você, então ninguém teve essa conversa comigo quando cheguei.
- E como é morar na praia? Você nunca enjoa?
- Ah, teve vezes que eu quis ir embora sim. Não tem muita coisa pra se fazer que não envolva turismo, e essa não é a minha praia. Então sempre que me sentia encurralado eu pegava a balsa, mas me arrependia no meio do caminho e voltava na mesma balsa. Então, quando eu realmente tive que ir embora só pensava em voltar.
- Que coisa! Meu maior desejo sempre foi escapar de onde eu vivo.
- E onde é isso?
- Uma cidadezinha bem longe daqui, quase no Mato Grosso. Não tem absolutamente nada por lá.
- Eu sei bem como é. E por que você quer tanto ir embora?
- Sei lá, acho que eu já cresci o suficiente para aquela cidade. Acho que preciso de mais. Mas eu morro de medo que dê tudo errado e eu precise voltar.
- E o pior é que só quando a gente volta pode perceber que as coisas não são mais as mesmas, sabe? O tempo passa, a cidade muda...
- ...e você também muda.
Ele me olhou e sorriu, parecendo feliz por eu ter entendido a idéia. Meu corpo reagiu de uma forma estranha, me fazendo sentir como se meu estômago tivesse afundado dentro de mim. Apesar do calafrio que subiu pela minha nuca, senti que estava começando a transpirar e segurei a respiração. Parecia medo, mas medo do que? Tudo o que ele fez foi olhar diretamente pra mim. Tantas músicas tocaram ao mesmo tempo na minha cabeça que eu não consegui identificar nenhuma. Estava confusa e, por causa disso, apavorada. Quando meus ouvidos começaram a apitar comecei a soltar o ar lentamente e então entendi: eu queria desesperadamente beijá-lo. Que bobagem! Isso estava no topo da lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Você está calada já faz muito tempo. Em que está pensando?
Não parecia uma boa idéia contar a verdade.
- Ah, nada de mais. É só que isso tudo é muito estranho, sabe?
- Isso tudo?
- É. Estar aqui nesse lugar vazio conversando com um desconhecido. Não me entenda mal, você é muito legal. Acho que o problema é comigo. Eu não sei como me comportar perto de gente que eu não conheço.
- Ah, você é tímida?
- Não, acho que não. Sou anti-social mesmo.
- Se vamos ser amigos você tem que se socializar comigo. E é isso que estamos fazendo. Não se preocupe, está indo muito bem. Você vai se sentir melhor se eu te contar um segredo sobre mim?
- Não sei, mas agora eu quero ouvir!
- Espertinha! – ele limpou a garganta e se aproximou um pouco, para falar quase num sussurro – Quando eu tenho insônia, a única coisa que me ajuda a dormir é deitar debaixo da cama.
- Debaixo da cama? – devo ter falado alto demais, porque ele logo me silenciou com um “shh” – Que coisa mais esquisita! Leite morno não funciona?
- Não.
- Um CD do Kenny G?
- Eu nunca tentei, talvez funcione – ele respondeu entre risadas – Agora você me conta um segredo seu. De preferência um bem cabeludo.
- Deixe-me pensar. Ah, já sei. Ninguém sabe, mas minha vida tem uma trilha sonora.
- Como assim?
- O tempo todo eu tenho uma música na minha cabeça para acompanhar cada momento, como em um filme.
- Você tem vozes na sua cabeça?
- Não, não é como se eu fosse completamente maluca. É mais como se eu tivesse fones de ouvido permanentes e um set list perfeito para cada ocasião.
- E como é isso?
- É bem legal, na verdade. Com meu pai quase sempre tenho uma música do Elvis na cabeça. Com o Bernardo ouço bastante Beatles. Quando eu entro em um carro para viajar sempre vem “Road tripping”, é inevitável. Do mesmo jeito que toda vez que eu caio em Copacabana no Banco Imobiliário eu tenho que cantar “Sábado em Copacabana”. As pessoas ficam irritadas com isso, mas é divertido.
- E você ainda tem coragem de dizer que meu jeito de dormir é esquisito?
- Eu nunca disse que era uma menina comum.
- E eu nunca achei que você fosse.
Quando ele disse até pareceu um elogio, e talvez fosse mesmo. Minha risada boba surgiu novamente e ele me encarou com um sorriso. Talvez ele gostasse mesmo da minha risada. Talvez alguém mais gostasse dela. Mas quando sua mão tocou a minha por acidente, senti meu estômago se revirar. Devo ter transparecido o mal estar, pois ele ficou muito sério e guardou as mãos nos bolsos.
- Mas agora você vai ter que me contar o que você está ouvindo ai dentro da sua cabeça.
Essa não era uma informação que eu quisesse passar. Shakira cantava bem alto “Antologia” e “Underneath your clothes”, seguida de “Head over feet” da Alanis Morissete e The Corrs com “What can I do”. Um pouco antes que Britney Spears ou outra do tipo aparecesse com mais uma balada de adoração a um rapaz aparecesse todas as outras se calaram e eu ouvi “Hoje a noite não tem luar”, o clássico do amor juvenil no litoral. Senti vergonha de mim mesma e pensei que a adolescência era um ponto negativo na minha vida. Mas então “Can’t help falling in Love” começou e eu decidi que precisava para imediatamente de me encantar por aquele cara.
- Sinto muito, mas esse é um dos itens da minha lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Uma hora dessas você vai me contar, eu sei.
- O que te faz ter tanta certeza?
- É inevitável. Quando eu te cativar, você vai querer me contar.
- Me cativar?
- Sim, como no livro.
- Então eu sou a raposa?
- Eu acho que sim, não tem outro jeito. Você já me cativou.
Senti o ar sumir dos meus pulmões e minhas pernas amoleceram. Eu queria correr e enfiar minha cabeça no buraco da fronha e só sair de lá quando já tivesse idade para dirigir, mas não conseguia me mexer. Meu estômago parecia me ancorar ali onde estava sentada. Talvez meu cérebro tivesse sido afetado também, porque eu não consegui pensar em nada inteligente para dizer.
Novamente muito caridoso, Fernando quebrou o silêncio enquanto usava meu ombro como apoio para se levantar:
- Mas não se preocupe, a raposa cedeu, eventualmente. Então você vai acabar me contando.
Ele segurou minhas mãos e me ajudou a ficar de pé, coisa que achei muito perigosa, pois o simples fato de segurar minhas mãos já me fazia perder a firmeza nas pernas. Ele me ajudou a manter o equilíbrio e continuou segurando minhas mãos:
- Eu tenho que ir agora. A pousada não é muito perto daqui.
- Mas você não vai embora, vai? – o desespero na minha voz era notável - Tipo, embora daqui?
- Não, ainda não – ele me confortou com um sorriso – Eu tenho que ver você amanhã, não é? Então, até amanhã!
Ele me deu um beijo no rosto e soltou minhas mãos com cuidado, em direção ao escuro caminho que levava para a rua. Fiquei estática por um tempo e só quando ele estava quase desaparecendo consegui dizer fracamente “até”. Levei a mão ao rosto e me senti arder. Estava febril, com certeza. Sentei novamente na areia e fiquei um tempo sem me mexer, apenas segurando a minha bochecha e encarando a água. Então deixei meu corpo cair e comecei a encarar o céu, ainda meio letárgica. Pouco depois meu pai apareceu no meu campo de visão e fiquei feliz por ter alguém me dizendo que era hora de tomar banho e ir para a cama. Eu não conseguiria sair daquele estado por conta própria.
Então mecanicamente me lavei e me acomodei na cama, morrendo de medo de acordar e descobrir que ainda estava em Celeste, que meu pai não tinha decidido me levar para o lugar mais bonito do mundo e que eu ainda era a menina baixinha, gordinha e indesejável que sempre acreditei ser – até aquela noite.
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