quinta-feira, 22 de outubro de 2009

1 – Veritas

Não posso dizer que todos os passos da minha vida me levaram ao meu primeiro dia de aula no Colégio Paulista Veritas, mas posso dizer que mesmo antes de nascer eu tinha sérias chances de acabar aqui.
Eu nunca soube muito sobre minha família, nunca achei que fosse interessante. Mas um dia, fuçando uma caixa de fotos de minha avó - sem permissão e embalada por “father and son” (quero trocar esta música)– encontrei uma foto amarelada de três rapazes em uniformes muito diferentes dos que eu usava na escola. Sobre a camisa branca, dois meninos usavam casacos de lã – pareciam Cardigans – e o outro usava um paletó. Todos tinham o mesmo brasão, cabelo repartido de lado cheio de gel e um sorriso no rosto. O menino mais alto parecia meu pai. Eu não me lembrava de tê-lo visto sorrindo assim. E os outros eram meu Tio Guilherme e meu Tio Osvaldo, muito mais magro e menos careca. Eu sabia que eles tinham estudado juntos na faculdade, mas não sabia que tinha freqüentado as mesmas escolas. “Isso é que é amizade duradoura”, eu pensei. Olhei atrás da foto e li “Veritas, 1º ano”. Então eu me encontrei num dilema: eu podia pegar a foto e perguntar para o meu pai sobre o colégio, e tomar um corretivo por mexer onde não deveria ou não falar nada sobre a foto e não tomar nenhum castigo. Era curiosidade demais para uma pessoa só. Pensei nas histórias que eles teriam para me contar, da época dos rapazes. Fiz as contas na cabeça. Histórias de antes dos divórcios, dos casamentos, antes de mim e, talvez... antes de minha mãe.
Essa era uma história que eu nunca tinha ouvido e que tinha se tornado minha obsessão. Desde a morte de minha avó no ano anterior, meu maior passatempo tinha sido encontrar coisas sobre minha mãe. Acho que é normal uma garota que nunca conheceu a mãe querer saber algo sobre ela. O que não é normal é um pai que se recusa terminantemente a dizer qualquer coisa sobre ela. Talvez até seja normal, eu não conheço tantos pais assim. A coisa é que minha avó era a única que deixava escapar alguma coisa, como uma música que ela cantava para me fazer dormir ou o quanto ela gostava de comer queijo o tempo todo. Meu pai nunca tocou no assunto e nas poucas vezes que eu tentei, fui imediatamente cortada. Nunca com gritos, nem briga, mas com muita amargura. Sempre depois disso ele ficava muito frio e monossilábico, tanto que eu podia jurar que a temperatura na casa caía alguns graus. Sem minha avó, percebi que nunca mais teria como perguntar a ela todas as coisas que eu tinha medo de saber. Então decidi encontrar as respostas o mais rápido possível – mesmo que doesse – antes que não me restasse mais nenhuma fonte.
Por meses eu sutilmente perguntei a conhecidos, procurei fotos, cartas, um esforço inútil. Tudo parecia muito bem escondido. E era impressionante como ninguém nunca tinha alguma vez conversado com minha mãe. Talvez ninguém quisesse meter o bedelho na história da minha vida – coisa muito estranha, pois meter o bedelho era um esporte naquela cidade – mas o fato é que eu já estava perdendo as esperanças quando encontrei aquela caixa de fotos escondida no guarda-roupa de minha avó. A pesquisa podia ser estendida, não? Eu não sabia nada sobre minha mãe, mas também não sabia muito mais sobre o meu pai. Era um começo. De repente, a história de minha família ficou interessante.
Peguei o telefone e torci para que meu Tio Guilherme atendesse depressa, antes que eu mudasse de idéia. Onde ele estaria numa quarta-feira às oito e meia da noite? Talvez no mesmo lugar que meu pai, pois eu não sabia onde ele estava. Dois toques e desliguei. Que coisa mais besta, incomodar no meio da semana sem nem saber direito o que dizer. Sem ter a mínima idéia do que dizer. Liguei de novo, torcendo para que ele não atendesse.
- Alô – ele disse no tom mal-humorado típico dele.
Entrei em pânico. Esqueci completamente o motivo da ligação.
- Alô? – ele insistiu, mais mal humorado da segunda vez.
- Oi! Alô! Tio, sou eu. Tudo bem? Eu estou atrapalhando?
- Elisa? – desta vez mais surpreso do que mal humorado - Claro que não atrapalha, pode falar. Algum problema ai?
- Não, nenhum. Só queria falar um oi.
- só queria falar um oi? Desde quando você me liga na hora dos seus programas de TV só pra falar um oi?
- Ah, sei lá. Só estava com saudades...
- Vamos lá, menina, pára de enrolar. O que você fez? Precisa de dinheiro? Pode me contar, prometo que ajudo.
- Não é nada disso! É que eu estava vendo as fotos da minha avó, sabe? Pra matar as saudades... – usar o cartão da avó morta era covardia, mas pareceu uma boa idéia - ... e encontrei um foto engraçada.
- Então você está sozinha ai?
- É...
- Onde está o seu pai?
- Ele foi pra São Paulo hoje de tarde. A vizinha ia ficar comigo, mas eu fingi que fui dormir mais cedo...
- Isso é errado, sabia? Se o seu pai quer passar tanto tempo em São Paulo ele deveria ficar logo por aqui. Deixar você ai, sozinha, é um absurdo. Ele vai ouvir amanhã, pode deixar.
- Tio, sério, sem pânico. A vizinha acabou de ir embora. Mas o que motivou a ligação foi mesmo a foto...
- Que foto é essa?
- Uma foto de vocês em um uniforme engraçado. Véritas, eu acho. Era uma escola?
- Onde você encontrou essa foto? – o tom preocupado que usou nessa pergunta me deixou alarmada. Talvez não tivesse sido uma boa idéia.
- Numa caixa, no guarda-roupa da minha avó.
- Eu sabia que isso aconteceria um dia – ele foi de preocupado a irritado em um instante – É, a moça comigo e seu pai na foto é a sua mãe.
Senti o meu estômago se revirar como uma bolha de ar no vidro de xampu. Minha mãe. A menção dela me aterrorizava. Por mais que eu procurasse, acho que não tinha a real intenção de descobrir nada.
- Você conheceu minha mãe – não era uma pergunta, era uma constatação. Um tanto óbvia, mas ainda sim era a melhor forma de processar aquela informação – Você conhece minha mãe.
- Bom, eu sei quem é a sua mãe, se é essa a pergunta. Não é essa a pergunta?
- Na verdade, eu mão encontrei nenhuma foto com minha mãe. Só você, meu pai e o tio Osvaldo.
- Como? – então o pânico da minha voz se transferiu para a voz dele.
- Então, é uma escola?
- Qual foi a pergunta?
- Se Veritas é onde vocês estudaram.
- Essa é uma pergunta muito complicada...
- É uma pergunta muito simples, ué!
- Não é não, e você sabe. Eu não deveria falar disso com você. E você sabe disso. Seu pai...
Eu sabia que ele tinha deixado toda a humanidade de sobreaviso quando comecei a fazer perguntas. Que homem estranho!
- É sobre você, só você.
- Sim, é uma escola. Fizemos o colegial lá. Foi onde conheci o seu pai e o Osvaldo.
- E minha mãe?
- Como assim?
- Foi onde conheceu minha mãe?
- Que pergunta é essa?
- Você começou!
- E vou terminar! Pode parar com o interrogatório. Você pode colocar a nós dois em problemas com essas perguntas.
- Mas tio... eu só queria saber alguma coisa. Qualquer coisa! Minha mãe estudou lá também?
- Pare de me perguntar essas coisas! – senti o desconforto em sua voz. Ele queria me contar - Você não tem uma Barbie pra pentear ou algo assim?
- Por favor?
Ele suspirou. O estrago já estava feito.
- Elisa, entenda. Seu pai acha que é melhor para você se souber o mínimo possível sobre ela. E é melhor pra ele também. Toda essa coisa é muito... ele é muito sensível a esse assunto.
- O que ele quer? Que eu finja que nasci de um ovo? Todo mundo tem mãe. Todo mundo! E eu só sei o nome da minha. Eu podia encontrar com ela na rua e nem saber. Eu não conheço minha própria mãe.
- Nenhum de nós conhece sua mãe, querida. Pensávamos que conhecíamos, mas ela surpreendeu todo mundo quando foi embora. Você deveria saber o quanto isso foi – o quanto isso é doloroso para o seu pai. Ele foi abandonado.
- Eu também fui.
- Eu sei disso! Eu sei! Por isso mesmo você não tem que se preocupar com essas coisas. Nós estamos muito bem, não? Você não é feliz?
- Eu sou uma pré-adolescente, tio. Eu sou biologicamente incapaz de ser feliz.
- Essa é minha garota. Por que você não finge que ela morreu? É muito ruim pensar nas coisas assim?
- Não. Só seria uma grande mentira.
- Muitas das verdades da vida são grandes mentiras.
- É diferente. Se eu viver com esse sentimento, será como se eu estivesse mentindo pra mim mesma. Vai continuar sendo uma mentira, só vou tirar a responsabilidade de vocês. Eu não sou tão boa gente assim.
- Mas o que você quer saber afinal? Que diferença faz agora?
- Eu quero saber por que ela foi embora? Por que ela não me quis? Quero saber se somos parecidas. Sabe?
- Sei. Olha, por enquanto eu só posso te dizer que nós estudamos juntos e foi lá que ela e seu pai se conheceram. E eu também posso te dizer que o melhor a se fazer é parar de procurar coisas, antes que seu pai suma com todas elas. Dê a ele um tempo para te contar tudo. Só mais um tempo.
- Quanto mais?
- Não sei. Mas escute o que eu digo. E você também não quer cotar sobre essa conversa. Comente sobre a foto, quem sabe ele te conta alguma coisa.
- Quem sabe...
- Mas também suma com essa caixa de fotos. Ele pode querer esconder de você o resto.
- Certo... eu acho.
- E vou fazer um acordo com você: no seu aniversário de quinze anos, meu presente pra você será uma resposta. Vou responder a qualquer pergunta, sem enrolação. Pode ser?
- Isso não é lá um bom acordo. Eu tenho que esperar mais cinco anos?
- Pegar ou largar. É o máximo que eu posso fazer.
- Acho que tenho que aceitar, não é?
- Acho que sim. Agora, me conte sobre seu dia. Está empolgada com a quinta série?
- Ah – eu realmente não queria mudar o assunto – sei lá. Parece a mesma coisa, só que com mais professores. Mas eu fiz uma amiga. Uma menina nova na cidade.
- Mesmo? Quem é ela?
Ele estava se esforçando tanto para me fazer pensar em outra coisa que eu fui obrigada a me deixar levar. Eu queria mesmo contar dos meus primeiros dias de aula. Por pirraça tinha empurrado a versão resumida cheia de cortes para o meu pai.
- Renata. Ela é a menina mais bonita da escola, sem dúvidas. Ela é loira, alta, tem olhos verdes e um cabelo liso, liso. Mas, apesar disso, ela gosta de estudar e dos livros do Harry Potter.
- Quem não gosta desse moleque, né?
- Você não gosta!
- É, eu detesto esse moleque. Mas eu não gosto de muita coisa mesmo.
- Por que meu pai não está com você?
- Não sei. Ele deve ter alguma reunião amanhã cedo.
- E você está sozinho?
- Estou. Sua tia Marcela foi embora de uma vez – houve uma pausa um pouco mais longa, quase preocupante - Mas isso é uma boa coisa.
Eu também achava aquilo uma boa coisa. Infelizmente, Marcela não entendia muito bem o relacionamento do meu tio Guilherme comigo. Na verdade, ela era tão ciumenta que não entendia o relacionamento dele com ninguém. Apesar de seus pais ainda serem vivos, não era segredo para ninguém que o Tio Guilherme tinha adotado a família do meu pai. Ele sempre passava as festas conosco, comparecia a todas as minhas festas de aniversário e eventos importantes da escola. Nas minha férias, tirava folga do trabalho só para me levar ao zoológico, ao parque, ao shopping. Como meu padrinho, ele levava muito a sério seu papel de segundo pai. E eu me sentia assim também. Mas a Marcela queria que eles tivessem logo os filhos deles para que ele pudesse mimar e cuidar. Queria que ele passasse menos tempo com meu pai e o Tio Osvaldo. Queria que ele vivesse só para ela. Acho que é muito difícil se encaixar numa estrutura como essa que eles montaram. A dinâmica dos três é incrível. A esposa do Tio Osvaldo, a Diloca, nunca tentou mudar nada. Ela simplesmente era segura o suficiente do seu lugar na vida do marido e não se preocupava em competir com a gente. Tanto que ela acabou se tornando parte daquela nossa família sem vínculo de sangue. Mas a Marcela não. Ela queria uma família só pra ela. Uma boa dica: não faça seu namorado escolher entre a vida que ele tinha antes e a vida que você quer que ele tenha. O resultado pode não ser o esperado.
Então, com menos de três anos de casamento os dois se separaram. Ele pareceu triste, mas eu não tinha acesso aos sentimentos que ele tinha por outras pessoas. Ele só me fazia saber o tempo todo o quanto me amava. O resto ficava guardado só pra ele.
- Ah, veja o lado bom!
- É, deve haver um lado bom. Mas agora eu acho que você deveria se preparar pra ir dormir de verdade. Eu te ligo amanhã, ok?
- Tá certo. Obrigada pelas respostas.
Nos despedimos e eu corri para o meu quarto. Não estava pronta para dormir ainda. Sentei na frente do computador e imediatamente abri o buscador. Se era um colégio, deveria ter um site. A não ser que não existisse mais. Eu estava com sorte e na primeira tentativa abri uma página com o mesmo brasão da foto. Eu assumi que era o mesmo brasão, porque a foto já não era tão nítida.
Tratava-se de uma escola bem antiga, onde haviam estudado muitas pessoas ricas e famosas. Antes era uma escola só para meninos, mas nos anos 60 começou a receber meninas. Não tinha certeza se já havia turmas mistas por lá. A foto do prédio da escola era linda. Parecia coisa de filme. Era uma arquitetura antiga, com cara de começo do século XX. Não que eu entendesse alguma coisa de arquitetura, mas eu era apaixonada pelos prédios do centro velho de São Paulo. Imediatamente pensei no Liceu de Campinas, onde gravavam aquele programa da Sandy e do Junior.
Achei engraçado quando li que era um internato. Até então achava que internato era coisa de aluno degenerado. Mas por ficar muito longe da capital, imaginei que seria meio difícil ir e voltar todos os dias. Sim, a capital é onde ficam as pessoas que tem dinheiro, normalmente. Pelo menos era o que eu pensava.
Para entrar era preciso passar por um processo seletivo. Havia uma prova, uma avaliação do histórico escolar e uma entrevista. Achei que eles levavam essa coisa de seleção muito a sério. Parecia caro. Muito caro. E as fotos dos meninos e meninas em uniformes de colégio inglês aumentavam a impressão de que se tratava de um outro mundo, distante demais do meu em diversas formas além da geográfica.
No meio da minha pesquisa uma mensagem instantânea pulou na minha tela.
“Fazendo o que por aqui? Pensei que ia mexer nas coisas da sua avó”
Era o meu melhor amigo, Bernardo. Apesar de ele ser um herdeiro em São Paulo e eu ser a filha de um advogado em Celeste, no interior do estado, conseguíamos manter nossa amizade desde os quatro anos de idade.
“já mexi. Achei uma foto do meu pai na escola. Ele era chegado em gel”
“Acabei de quebrar meu recorde no jogo das bolinhas. Já é a terceira vez.”
“É, você é mesmo um desocupado. Estou lendo aqui, dá licença.”
“Lendo o que?”
“Veritas. Sabe o que é?”
“Além de latim?”
“É, seu idiota”
“É uma escola. Colégio Paulista Veritas”
“Você conhece?”
“Sim, claro. É uma escola muito famosa e tradicional. Minha mãe diz que temos uma vaga reservada desde o dia que nascemos. Ela faz questão que estudemos lá.”
“Por quê?”
“sei lá, porque sim. Acho que ela se empolgou com a coisa de colégio interno”
“Se fosse por isso ela podia mandar você para qualquer país do mundo”
“Ah, não. Isso me obrigaria a ler e escrever em mais um idioma”
“Você já fala uns quatro. Não ia ser um problema”
“É a coisa da tradição... Mas o que tem de interessante nisso?”
“Minha mãe também estudou lá”
A resposta demorou a chegar. Ele sabia da delicadeza do assunto
“Você deveria estudar lá também. Assim, poderíamos passar o ano inteiro juntos”
“Ninguém merece!”
Não tinha pensado naquilo ainda. Talvez aquele lugar tivesse alguma resposta. Mas era dinheiro e tempo demais investidos em uma coisa que podia não dar em nada. Mas eu ficaria mais perto do meu amigo. E do irmão mais velho dele, por quem eu estava perdidamente apaixonada desde antes de saber o que era estar apaixonada. Se havia um bom lugar para que ele pudesse notar minha presença, certamente seria aquele. Numa escola com menos de 300 alunos, ficava meio difícil não conhecer alguém, muito menos alguém com quem ele brincava desde muito pequeno. Alguém que freqüentava sua casa, com quem passava horas jogando videogame e contando histórias. Talvez não fosse uma idéia tão ruim assim.
“Mas deve ser caro”
“Tente uma bolsa. Você é praticamente um caso para a Unesco”
“É, por isso eu moro em uma tribo na África”
“Celeste é uma cidade cheia de tribos. Só que são vários clãs de roceiros!”
“Mesmo com esses roceiros, você ainda passa suas férias aqui”
“Ora, não se ofenda. Eu ainda gosto de você, mesmo sendo uma caipirinha”
“Não vou nem responder...”
“Tente a bolsa, sério. Você tem bastante tempo para estudar. Sem contar que, se o seu pai estudou aqui, você deve ter preferência.”
Conversei um pouco mais sobre as novidades daquela semana e sobre o avanço da minha Paladina no jogo de tíbia antes de dormir. Naquela noite, sonhei que estava passeando no magnífico prédio da escola, usando o uniforme azul com o casaco de lã e assistindo de longe uma moça com o rosto escondido atrás de uma câmera fotografar três rapazes com gel demais no cabelo ao som de ma balada pop dos anos 80.
Cinco anos depois eu acordei na hora do almoço, ouvindo o carro do meu pai entrar na garagem. Vesti um jeans surrado, prendi o cabelo num rabo de cavalo e tentei não parecer muito amassada. Quando ele me chamou lá embaixo desci correndo. Ele me esperava ao pé da escada com um semi-sorriso. Era impossível não se encantar com meu pai. Ele tinha um rosto quadrado, cabelos muito pretos e bem penteados, um olhar doce e bondoso em olhos castanhos, emoldurado por um par de sobrancelhas harmoniosas. Seu nariz era perfeito, um pouco grande, mas que cabia perfeitamente no rosto grande do meu pai. A barba por fazer pinicava toda vez que ele me beijava. Eu adorava. Ele também não era alto demais, tinha um pouco menos que 1,80m. Estava usando uma camisa branca com um terno claro, sapatos cor de caramelo, mas já não estava de gravata. Se havia uma coisa que meu pai fazia bem, era se vestir.
- Cheguei! – ele anunciou, todo feliz.
- Ah, eu nem vi que você tinha voltado, então não vi que você tinha ido.
- Isso mesmo, a culpa é uma das armas da manipulação. Se continuar assim, vai poder advogar no meu lugar em breve.
- Não, não, muito obrigada. Vou ser engenheira.
- Isso é o que nós vamos ver. Passou bem a noite?
- Aham.
- Quer almoçar comigo?
- Aham.
- Então vamos logo!
Desci a escada pulando alguns degraus e ele me agarrou em um abraço. Apesar de não passar tanto tempo comigo quanto gostaria, meu pai sempre era muito carinhoso. Todas as noites, mesmo quando chegava muito tarde e achava que eu estava dormindo, ele passava pelo meu quarto para me dar um beijo de boa noite. Algumas vezes eu estava acordada, mas fingia que não estava. Nunca consegui entender direito o que me motivava a agir assim. Talvez fosse minha irritação por ele ter chegado tarde, talvez fosse para evitar alguma conversa, talvez fosse para mantê-lo distante. Nunca fui muito boa com essa coisa de proximidade, principalmente com meu pai. Alguma parte de mim, muito pequena, o culpava pela vida que eu levava até então. Mesmo assim ele não desistia. Fazia de tudo para me agradar e ultimamente estava se esforçando mais do que o normal, por causa da morte da minha avó. Ele gostava de me ouvir falando de qualquer coisa, só não tolerava conversas sobre minha mãe.
Chegamos ao único restaurante da cidade que não trabalhava exclusivamente com marmitex. Era um lugar pequeno, muito colorido, especializado em comida italiana. A dona do lugar, Carmela, era um estereótipo da matrona italiana: rechonchuda, os cabelos muito pretos, os olhos verdes muito vivos e sempre gritando com alguém. Quando me viu passando pela porta logo me deu um abraço apertado com seus braços gordos, mas fortes de quem abre massa de macarrão com o rolo. Ela e minha avó eram muito amigas, e foi a sua bondade que abasteceu minha casa de comida quando ela foi para o hospital.
- Gustavo! Ainda bem que você apareceu. Eu já estava a ponto de mandar alguém ver se a menina estava viva. E você está! Que menina mais linda! Vamos, vamos sentar. – ela nos encaminhou a uma mesa vazia perto da janela, sempre gritando com alguém sobre alguma coisa errada, mas sem parar de falar e gesticular – Como você emagreceu, Elisa! Olha só, um saco de ossos. Vamos te encher de comida, ah? Eu fiz uma lasanha que vocês vão adorar, já vou mandar servir. Mas antes comam um pouco de pão, vamos. Ah, e eu vou trazer também aquela sobremesa de chocolate. As crianças adoram chocolate! Ah, que menina linda! E você também, Gustavo, cada dia mais bonito. Eu tenho que lhe apresentar um boa moça, tenho sim.
- Dona Carmela, não se incomode. De verdade. Está chovendo mulher na minha horta – ele sorriu e deu uma piscadela – mas nós vamos aceitar a sugestão sim. Muito brigada por tudo.
Ela sorriu, apertou minha bochecha mais uma vez, e saiu balançando a cabeça e gritando o nosso pedido para alguém dentro da cozinha. O ambiente era caloroso, diferente da minha casa quando ficava sozinha. Meu pai logo começou a espalhar a manteiga caseira no pão quentinho que colocaram na nossa mesa. Eu hesitei por um momento. Tinha passado o ano inteiro lutando contra o peso e ainda estava com a ressaca das festas de final de ano. Decidi esperar pela comida.
- Então, como foi a escola?
- Pai, estamos em janeiro. Não tem escola.
- Nossa, é mesmo. Quando foi que o tempo começou a passar tão rápido?
- Sei lá. Mas já que você falou de escola, eu queria falar sobre isso com você.
- Acho que sinto uma bronca chegando...
- Não, não. É mais um pedido, um aviso.
- Certo – ele ainda se empanturrava de pão, sem tirar os olhos da mesa – pode falar.
- Esse ano eu começo o colegial. Você deve se lembrar – ele assentiu com a cabeça, a boca estava cheia – e nós conversamos vária vezes sobre a escola daqui. É muito ruim, pai. Você concordou. E ficou de me apresentar opções. Isso foi no começo do ano passado. Se você quiser dar alguma sugestão, a hora é agora.
- Hum... o que você quer fazer? Ir para São Paulo? Eu não sei se é uma boa coisa ser adolescente em São Paulo. Tem drogas, sexo, assaltos. É o que você quer?
- Pai, as drogas, o sexo e os assaltos estão em todo lugar. Inclusive aqui. Você não lê o jornal?
- É, teria que ser uma escola particular, sem dúvida. Você quer ir para São Paulo? Achei que gostasse daqui. Eu sei que eu gosto de que você esteja aqui.
- Pai, se liga! Eu estou cansada dessa vida! Eu quero abrir a janela e ver outra coisa além de uma vaca parando o trânsito! Mas eu também não me planejei para estudar em São Paulo.
- Você se planejou?
- Sim. Eu fiz muita pesquisa, alguns testes. Faz um tempo eu estava mexendo nas coisas da vovó e achei uma foto sua, da época do colégio.
Eu pretendia fazer uma pausa para esperar uma reação, mas ela veio imediatamente depois da palavra foto. A cor sumiu do seu rosto e os olhos se arregalaram, me encarando com uma expressão que misturava terror com raiva. Ele sibilou, ameaçadoramente:
- Você encontrou uma foto?
- É. Uma foto de você com o tio Guilherme e o tio Osvaldo usando uns uniformes engraçados. Daí atrás estava escrito Veritas. Eu descobri que era o nome da escola. Você estudou lá no colegial, não é?
- É...
- E você me contou que estudou em um colégio interno. E que o vovô dava aulas na escola.
- É...
- Bom, eu fiquei interessada. Fui atrás de como fazer para estudar lá.
Ele finalmente voltou a respirar e não havia mais nenhuma veia saltada em sua testa. A conversa era amigável novamente.
- Você nunca me contou dessa sua pesquisa.
- Eu queria fazer uma surpresa. Presa aqui nesse fim de mundo eu não esperava conseguir preencher os requisitos e ser aceita. Acontece que eu fui, dá uma olhada!
Abri minha mochila e entreguei a carta de admissão que tinha recebido na semana anterior. O grande envelope branco tinha o brasão da escola no canto superior esquerdo e veio em meu nome. Além da carta de admissão havia também uma brochura com explicações para pais e novos alunos e vários formulários e listas de coisas que deveriam ser providenciadas. Sem ser emancipada é impossível se matricular sozinha numa escola com 14 anos de idade. Antes de ler a carta ele olhou para mim e abriu um sorriso tímido. Era pena ou satisfação?
- Elisa, querida, eu pude estudar lá porque meu pai era professor. Não acho que eu possa pagar a mensalidade dessa escola. Nós não somos pobres, mas eu não sou necessariamente rico. É dinheiro demais. Ficaria mais barato eu te comprar um carro quando fizer dezoito, talvez um apartamento pequeno.
- Você não está exagerando? – se ele ia jogar, eu tinha que jogar também.
- Não, de forma alguma. É muito caro, você deve ter visto isso em sua pesquisa.
- Mas e se eu conseguisse o dinheiro pra pagar?
- Como? Você não pediu para o Guilherme, pediu? Ah, isso deve ter o dedo dele. Não sei como ele planeja desembolsar tanto dinheiro tendo que bancar mais um divórcio...
- Não é isso não. Apesar de que ele ficou feliz quando eu contei que ia fazer a prova. Ele até me levou a São Paulo. Você tinha ido fazer alguma coisa no litoral. Eu não queria ir sozinha.
- Então ele está mesmo metido nisso!
- Pai, foca! Eu não preciso de dinheiro. Se você olhar com cuidado esse papel ai na sua mão vai ver que eu fui aceita e convidada a ingressar a escola com uma bolsa integral. E olha que eles só dão umas 6 bolsas por ano. É uma grande honra.
- Uma bolsa?
Alfredo, o filho mais velho de Dona Carmela, chegou empurrando o carrinho e trazendo a nossa lasagna e uma jarra de água. Diferente da mãe, ele era muito calado, mas igualmente amistoso. Ele me cumprimentou com um sorriso, mas a cara estarrecida do meu pai foi aviso suficiente de que aquela conversa não permitia interrupções. Serviu os pratos rapidamente e voltou para a cozinha. Meu pai manteve os punhos fechados sobre a toalha xadrez.
- É, pai. Uma bolsa. Que bom que você ficou tão feliz – para acompanhar o sarcasmo, uma cara raivosa virada para a janela e braços cruzados contra o peito - É por isso que eu te conto as coisas.
- Filha, não seja assim – sua expressão estava branda novamente e ele relaxou – eu estou muito feliz. Muito mesmo. Sei que deve ter sido difícil. Mas é isso o que você quer? Fugir de mim?
- Não diga uma besteira dessas!
- Então por que você escolheu a escola mais distante que conseguiu encontrar? Devem ser umas 7 horas de viagem!
- Pai, eu só quero ser tão boa quanto você! Eu só quero viver essas coisas! Nós estamos adiando a minha vida por muito tempo. Está na hora.
- Adiando?
- É. Você me escondeu aqui em Celeste e não me deixou fazer nada. E eu aceitei todo esse tempo. Mas eu quero mais, eu mereço mais. Você não acha? Eu fui feita para uma vida maior. Essa escola me dá mais possibilidades, você sabe.
- Não sei...
- Você quer que eu faça o que? Termine a escola, arranje um marido, tenha uma penca de filhos e fique plantando alface para viver? Mesmo?
- Claro que não!
- Você conhece o lugar, pai. Você conhece. Você sabe que é o melhor. Não diga que nunca pensou em me mandar pra lá!
- Nunca – ele ergueu um pouco o tom de voz, mas logo se controlou – Nunca me passou pela cabeça ficar mais tempo longe de você.
“Por isso passa a maior parte do tempo em São Paulo e me deixa sozinha em casa”, eu pensei com irritação. Bom, talvez ele não tenha pensado em ficar longe, mas era o que acontecia. De qualquer forma, sendo uma adolescente nervosa eu não ia conseguir muita coisa. Precisava parecer madura o suficiente para ficar sozinha. Respirei fundo e eliminei qualquer traço de irritação da minha voz.
- Pai, - eu segurei as mãos dele – vai ficar tudo bem. Eu amo você. Nada vai mudar entre nós. A gente pode se falar todos os dias. Você pode ficar no apartamento em São Paulo e parar com essas viagens absurdas. Vai poder ter uma vida de verdade. E eu vou poder fazer o que eu sempre quis. Vamos tentar, pai. Só por um semestre. Se não funcionar, eu volto. Prometo.
Ele me analisou longamente. Eu estava ansiosa. Nunca pensei que conseguiria assim, sem ter que chorar e brigar. Finalmente ele abriu um sorriso desconfiado e falou:
- Um semestre?
- É, um semestre. Um teste.
- Hum... ok – ele estende a mão para fechar o acordo – discutiremos isso de novo nas férias de julho então.
Eu levantei e comecei a abraçá-lo e beijá-lo, agradecendo freneticamente. O almoço continuou com uma conversa animada sobre os preparativos e com algumas histórias de quando ele estudou lá. Eu não pensei que poderia ficar mais feliz. Em menos de um mês eu estaria do outro lado do estado, vivendo a minha vida. Tudo corria de acordo com meus planos. Na minha cabeça “Beautiful Day” tocava bem alto, embalando o caminho para a casa.

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