Ficou combinado que meu pai passaria o resto daquela semana providenciando as coisas para a matrícula. O carro mal tinha saído da garagem e eu já estava no telefone, pulando de ansiedade.
- Bernardo, sou eu.
- Geralmente eu falo alô e então você se apresenta, não é?
- Ai, moleque chato! Você não quer saber por que eu estou ligando a essa hora?
- Ah, eu quero?
- É, eu acho que não te interessa saber que eu já conversei com meu pai sobre a coisa de estudar no Veritas...
- Foi?
- Foi.
- E ai?
- Agora você está interessado?
- Não enrola, Elisa. Vai me dar uma crise de ansiedade.
- Peça desculpas.
- Ai, inferno! – ele bufou e eu abafei o riso – Por favor, me desculpe. Você é a rainha do universo. Como foi a conversa?
Eu resumi o almoço do dia anterior, sem conseguir esconder a minha felicidade. Ele também estava tagarelando sobre como seria um máximo quando estivéssemos estudando juntos. Apesar de sempre afirmar o contrário, eu queria poder voltar a passar tempo com ele. Foi bom ter alguém tão feliz quanto eu com tudo aquilo, alguém que entendesse o quanto era importante. Conversar com Bernardo era sempre a forma mais rápida de me alegrar.
- Você não pode vir pra cá? E vou ficar sozinha a semana toda. Você podia dormir aqui e a gente acampava na sala, fazendo maratona de animes!
- Na verdade, eu tenho planos...
- Não faça isso comigo! Sua mãe vai te levar pra onde desta vez? Isso é tão injusto! – a campainha tocou e eu fui atender, sem parar de reclamar ao telefone – Eu sei que há uma grande parcela de inveja, porque o meu pai nunca me leva pra lugar nenhum, mas você prometeu que passaria uns dias aqui comigo. Sua namorada mora aqui, peloamor!
Quando abri a porta fui surpreendida pela figura do meu melhor amigo parado no portão. Fiquei pasma.
- Ex namorada. – ele falou antes de fechar o celular num movimento rápido – ex.
Eu corri para abrir o portão, ainda com a cara de idiota surpreendida. Ao contrário de mim, ele tinha aquela cara de quem diz “eu sou mais esperto do que você”. Naquele momento ele era mesmo.
Depois de quase um ano sem vê-lo, precisei de um minuto para processar aquela imagem. Ele definitivamente estava mais alto, já devia estar chegando no metro e setenta. Os cabelos castanhos, fartos, ondulados e brilhantes continuavam rebeldemente espalhados pela sua cabeça. Ele também parecia mais forte. Mas o sorriso perfeito sob o nariz perfeito e os grandes olhos castanhos era o mesmo de sempre. Eu queria abraçá-lo, mas era estranho demais. Coisas que só a adolescência pode fazer por você. Eu segurava a grade do portão enquanto olhava abobalhada para aquela pessoa que eu mal podia reconhecer. Quando foi que ele tinha ficado tão bonito? Não importava.
- Você também pode abrir o portão e me deixar entrar, ou pode me deixar aqui do lado de fora como uma visita indesejada.
- É, acho que é a segunda opção.
Abri o portão e notei que a estranheza não era só minha. Ele ensaiou um abraço que não aconteceu e me deu um soquinho no braço. Entramos e eu coloquei o telefone de volta na base enquanto ele se esparramava no sofá. Ele estava muito parecido com o irmão. Isso me lembrou de fazer uma pergunta:
- E os meninos, onde estão?
- Ah, em algum lugar da Europa com a Dona Marisa. Depois que entraram na escola as o tempo que minha mãe consegue passar com eles é sagrado.
- E você não quis ir? Quer dizer, é um continente inteiro!
- Promessa é dívida. Estou aqui. Sem contar que tem todas as coisas para preparar e menos de um mês para as aulas começarem. Eu fiquei com ela em Paris até o Natal, depois meu pai nos encontrou para passarmos as festas com ele. Quando ele precisou voltar semana passada eu vim junto, mas os caras ficaram.
- E ela não ligou de ficar sem o bebê?
- Claro que ligou. Fez alguma chantagem, mas nada impossível de contornar. Pais são reis da chantagem.
- Se são! Quer comer alguma coisa?
Fomos para a cozinha. Enquanto devorava as bolachas do pote, ele me contava os detalhes da viagem e eu contava sobre a farra do final do ano. Ele elogiou meu novo corte de cabelo e eu induzi um comentário sobre a minha boa forma. Queria que ele me contasse sobre Fabrício. Será que ele sentia minha falta? Claro que não.
Meu relacionamento com os meninos Medeiros era muito antigo, por isso o dinheiro nunca foi um empecilho. Durante o divórcio dos pais, os três irmãos vieram para a propriedade dos avós em Celeste. Bernardo tinha os mesmos quatro anos que eu enquanto os gêmeos Fabrício e Renato eram um ano mais velhos. Minha avó tinha me levado a sorveteria naquele dia e eu estava levando o meu copinho para a mesa, com todo o cuidado para não derrubar, quando os três entraram correndo e fazendo barulho. Não demorou nada para que Bernardo tomasse um empurão e esbarrasse em mim, fazendo com que o sorvete e eu caíssemos no chão. Minha reação foi a mais natural possível: eu abri uma boca enorme e chorei sem parar por mais de meia hora. Os três ficaram muito quietos, assustados com meu escândalo. Nada me consolava. Eu estava suja, humilhada e sem sorvete. Não avia remédio. A babá dos meninos conversou com minha avó antes de ela desistir da coisa do sorvete e me levar embora. Eu nunca tinha sentido tanta raiva em minha vida.
Na manhã seguinte eu estava brincando no quintal da frente quando vi o menino que me derrubou parar no meu portão. A babá chamou minha avó, eu fui atrás, com a cara mais emburrada do mundo.
- Elisa, - minha avó começou, tentando me amansar – o Bernardo aqui veio pedir desculpas. Ele também quer brincar com você. Que tal?
Eu nunca consegui deixar atender a qualquer pedido da minha avó. Ela era tão boazinha, tão carinhosa. Concordei em deixar o menino entrar. No final do dia já éramos praticamente irmãos.
No dia seguinte conheci os irmãos e brincamos juntos todos os dias daquele ano. Quando o pai dele aparecia, ele não tinha problema nenhum em me levar junto para os programas. Minha avó já estava íntima dos avós, então ela não me impedia sair. Era a minha pequena família, com os irmãos que eu sempre quis ter, com os brinquedos que eu nunca precisei ganhar. E quando meu pai vinha me visitar ele também não via problema em levar os meninos para qualquer lugar que fôssemos. A única que se importava era a mãe, Marisa. Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-la, só vi algumas fotos. Ela tinha o cabelo muito loiro e liso, um nariz muito fino, a pele branca e pálida e olhos castanhos como os de Bernardo. Ela não parecia ser muito divertida. Quando o grande carro preto que ela mandava chegava para buscar os meninos, eu sabia que era um passeio que não me incluía. Naquele ano os meninos passaram uma semana com ela e só.
No ano seguinte os gêmeos tiveram que voltar para São Paulo, para ir para a escola. Bernardo ficou e nós passamos mais um ano brincando. Logo ele também precisava ir para a escola e teria que ir embora. Na nossa despedida fizemos uma promessa de sermos amigos para sempre. Se fosse com qualquer outra pessoa essa promessa teria perdido a validade antes de o carro chegar em São Paulo, mas Bernardo era diferente. Ele me ligava todas as sextas-feiras, na hora do jornal, e conversávamos por uns cinco ou dez minutos. Mesmo quando não tínhamos o que falar, ele me ligava. Não era pelo assunto, era o compromisso. E quem é que pode dar as costas a uma pessoa assim?
Os anos foram passando, nós fomos crescendo, mas eles sempre me incluíam em suas viagens e sempre que possível vinham passar um tempo em Celeste. E assim nossa amizade se sustentou. Com a internet ficou mais fácil conversar, mas ainda assim toda sexta, na hora do jornal, Bernardo me ligava.
Conforme eu fui crescendo, meus sentimentos foram mudando. E a mudança mais gritante (além do meu peso, quando fiz 12 anos) foi a descoberta da minha paixão por Fabrício. Eu sempre o achei a coisa mais legal no mundo. Ele tinha um carisma forma do comum. Conseguia qualquer coisa com um sorriso. Sempre liderou nossas brincadeiras, inclusive nas vezes que nos meteu em encrencas. Mas era só pedir desculpas e abrir o se sorriso que todos os pecados eram perdoados. Então era natural que no primeiro momento que meu pequeno coração se permitisse sentir qualquer coisa por qualquer garoto, que este garoto seria Fabrício. A minha tristeza foi que a puberdade não tão boa comigo como para ele. Enquanto eu amargava alterações hormonais que estragaram até a raiz do meu cabelo, ele parecia um príncipe, com seus cabelos castanhos reluzentes e seus olhos azuis encantadores. Ele não teve os problemas com acnes como Bernardo e não ficou com os braços e pernas compridos demais, como Renato. Ele era perfeito, mas aquela perfeição não combinava com a menina baixinha, gordinha e de cabelo arrepiado que eu era. Só me restava nutrir aquela paixão platônica até que eu ficasse bonita ou até que ele conseguisse me ver como uma menina de verdade. O problema de ser como uma irmã para um menino é justamente esse: você é uma irmã. Estudar com ele, deslumbrá-lo com meu intelecto e personalidade tinham se tornado um objetivo. Perder todo o peso extra tinha sido uma forma de fazê-lo olhar pra mim, me notar. O plano estava funcionando
- Você devia parar de pensar no Fabrício. Ele não é boa coisa, Elisa.
- Do que é que você está falando?
- Dessa sua cara de boba. Toda vez que alguém fala alguma coisa sobre o Fabrício você fica com essa cara de boba.
- Você tem cara de bobo.
- Boa resposta. É o melhor que pode fazer?
- Ah, você fica projetando as coisas em mim! Só porque você fica por ai suspirando pela Marcela não quer dizer que eu esteja suspirando por alguém.
Ele fechou a cara e falou mais baixo:
- Eu não suspiro pela Marcela.
- O que aconteceu com vocês? Ela foi para a casa do avô sem me contar. Uma hora vocês ficam o tempo todo perguntando um sobre o outro e de repente ninguém nem toca mais no nome de ninguém. Isso é muito estranho.
- Não tem conspiração nenhuma, Elisa. A gente terminou.
- Por quê?
Depois de algumas horas de insistência e uma refeição, ele finalmente se cansou e decidiu me contar, com um pacto de silêncio.
- Como se eu tivesse para quem contar.
- Não é para ter mesmo. Olha, você lembra que quando me apresentou a Marcela você ficou com medo de que ela quisesse alguma coisa com o Fabrício?
- Eu?
- É. Enfim, eu também achei estranho. Acontece que eu acho que ela deveria ter mesmo ficado com o Fabrício. Eles combinam mais.
- Do que é que você está falando?
- No feriado de outubro ela foi para São Paulo me encontrar. Foi uma surpresa, eu achei legal. Acontece que ela não queria só conversar. Ela tinha uma idéia na cabeça.
- Que idéia?
- Ela queria cruzar a linha. Sabe?
- Não.
- Ela queria mais que ficar de mãos dadas.
- Aham. E..?
- Ela tinha idéias, Elisa! – ele estava ficando desesperado e vermelho.
- Que idéias?
- Ideias sexuais!
- Oh... Oh! Ai, meu Deus! Não! Ela é filha do pastor! Ela é professora da escolinha dominical! Marcela não tem idéias assim!
- Mas teve.
- E daí?
- E daí o que?
- Daí as idéias se tornaram fatos?
- Que pergunta é essa?
- Vocês chegaram aos finalmente?
- Eu não vou responder isso!
- Claro que vai! Por que você não responderia?
- É vergonhoso!
- Não seja besta! Sou eu, a rainha da terra da vergonha.
- É, e está querendo me tornar prefeito de lá?
- Sério, você não pode aparecer aqui com um elefante desse tamanho e esperar que eu respeite seu silêncio.
- Nada aconteceu. Satisfeita?
- Chocada é a palavra.
- Não parecia... correto.
- Sei lá. Eu tenho umas idéias sobre isso.
- Você tem?
- Claro. Eu não tenho nada contra quem quer fazer, mas eu prefiro esperar.
- Acho que eu também.
- Tá vendo só? Um baita drama por nada. Ser virgem é normal na nossa idade, eu acho. Aqui pelo menos é. Por isso as pessoas casam cedo, para poderem fazer coisas.
- Deve ser.
- E o que aconteceu?
- Ela ficou brava e foi embora. Nunca mais atendeu minhas ligações, me bloqueou no MSN e não responde meus e-mails. Não nos falamos desde então.
- Isso explica algumas coisas. Uma mulher rejeitada é osso duro mesmo.
- Não queria magoar ninguém. Verdade!
- Eu sei disso, eu sei. Quer jogar videogame?
Não sei por que, mas eu precisava mudar de assunto. Aquela tinha me deixado muito irritada depois que o choque passou. O que a Marcela esperava? Será que ela estava certa em esperar alguma coisa? E o que eu esperava? Ela era linda, loira, desejável. Se ela também estivesse ciente de suas qualidades, talvez pensasse que era irresistível. Isso deve doer. Nunca passei por esse problema, uma vez que sempre tive problemas de auto-estima. Mas por que ela não conversou comigo sobre aquilo? Nós éramos as melhores amigas, as únicas amigas. Tinhamos sobrevivido ao ginásio juntas, sozinhas. Ela porque era tímida demais para ser popular e eu porque achava as pessoas da minha sala idiotas demais para querer conversar com elas. Esperava que ela me contasse algo assim. Talvez não fossemos tão boas amigas. Talvez fosse só conveniência.
Depois de perder todas as partidas de luta por falta de atenção, busquei cobertores no quarto e pedi uma pizza. O tempo passava rápido demais quando estava com Bernardo. De barriga cheia e devidamente acomodados, conversamos até muito tarde. Finalmente eu adormeci no meio de um filme chinês de luta. Naquela noite sonhei que todos os meus amigos tinham crescido, menos eu. Ao fundo se ouvia “Ben”. Parece bobo, mas foi desolador.
Na manhã seguinte saímos cedo com o pretexto de pescar, mas passamos o dia na beira do rio conversando sobre nossas expectativas e algumas amenidades. Assim a semana passou, com muita comida, muita conversa e nenhuma pescaria de verdade. No final da tarde de sexta-feira nos despedimos, pela primeira vez com a certeza de que nos veríamos em breve. Enquanto olhava ele indo embora conseguia ouvir claramente “Stand by me” na versão dos Beatles. Parecia perfeito.
Qual não foi minha surpresa quando eu mal fechei a porta o meu telefone tocou. Olhei pela sala para ver se Bernardo tinha esquecido alguma coisa, mas era outra pessoa ligando: Marcela. Ela queria saber se eu estava sozinha e se podíamos conversar. Então minutos depois eu estava abrindo o portão para uma Marcela abatida e chorosa. Ao sentar no sofá ela desatou a falar e chorar. Não consegui entender nada. Uns vinte minutos e dois copos de água com açúcar depois ela conseguiu falar, entre soluços:
- Eu estou grávida.
Naquele instante o chão sumiu debaixo dos meus pés e eu tive que segurar com força no encosto do sofá para não cair. Numa fração de segundo pensamentos demais passaram pela minha cabeça, o que fez com que ela imediatamente começasse a doer. Como grávida? De quem? Quando? Será que Bernardo tinha mentido pra mim? Será? Não, ele não mentiria. O que a Marcela faria? O que o pai dela faria? O que eu faria se fosse comigo? O que eu faria?
- Você tem certeza?
- Já é o terceiro mês que não vem pra mim. Só pode ser.
Terceiro mês? Outubro não conta. Novembro, dezembro, janeiro. Três meses. Ele mentiria mesmo?
- Outubro...
- Como você sabe?
- Eu fiz uma conta. Como isso aconteceu?
- Foi um acidente! Não era para acontecer daquele jeito. Eu estava em São Paulo, confusa, não sei!
- Tá! Entendi – conforme a mentira se confirmava eu aia ficando mais irritada. Não podia perder o foco – E o que você vai fazer? Já falou com o... com o pai?
- Meu pai? Lógico que não!
- Não, o pai da criança!
Ela começou a chorar novamente e eu já não conseguia mais entender nada. Minha cabeça estava latejando. Eu fui pra a cozinha buscar mais água e uma aspirina. Duas aspirinas.
Talvez fosse muito egoísta de minha parte pensar em qualquer coisa que não a gravidade da situação da minha amiga. A gravidez da situação. “isso lá é hora de fazer piada?”, pensei com uma risada nervosa. Infelizmente, minha mente funcionava a toda capacidade e eu não conseguia me concentrar no problema. Pior do que Marcela se tornar mãe era Bernardo se tornar pai. Pai. Eu bem sabia como era horrível quando um pai é novo demais para assumir a responsabilidade. Eles iam culpar a Marcela e depois passar o resto da vida culpando a criança. Uma criança não deveria ter outra criança. Eu deveria ter crescido com uma mãe e um pai. Eu devia ter amigos que me contariam coisas importantes como a primeira vez. Ou até amigos que não mentiriam na minha cara sobre a primeira vez. Na verdade, eu queria mesmo ter amigos responsáveis que não engravidassem com quinze anos de idade. Eu não tinha nem completado meus quinze anos ainda... O que importava isso? Que diferença faz a nossa idade quando tem um elefante, não, um mamute albino sentado no sofá da sala?
- Acho que a gente podia ligar para o Bernardo. Ele ainda deve estar aqui na cidade. Ou pelo menos perto daqui.
- O que tem o Bernardo com isso? – ela me perguntou entre soluços – Eu não tenho coragem pra encontrar com ele.
- Como assim, “o que tem ele com isso”? Ele é o pai, não é?
- Não – ela parou por um momento, pensando – Não, não tem nada a ver com o Bernardo, definitivamente.
Meu estômago revirou mil vezes em um segundo e eu fui obrigada a me sentar para não cair. Se por um lado havia a possibilidade de meu melhor amigo não ter mentido pra mim, pelo outro havia a certeza de que eu não conhecia aquela menina sentada ao meu lado. A mesma menina que se sentou ao meu lado todos os dias pelos últimos quatro anos. Grávida de quem, meu Deus? Grávida de quem?
- Bom, então precisamos achar esse pai. Quem é?
Ela me olhou, com receio. Continuou olhando até que o receio se transformou em certeza.
- É melhor que você não saiba. É para o seu bem.
- Meu bem? Marcela, presta atenção: isso não é sobre mim. Mas também não é sobre o pai ou sobre você. É sobre a criança. Você não vai contar para o pai? Vai enfrentar tudo sozinha?
- Eu ainda não sei o que vou fazer.
- Não sabe? Como assim?
- Eu olhei na internet, eu perguntei por ai. Existem maneiras de não ter que lidar com isso.
Eu fiquei profundamente irritada com a forma como ela disse “isso”. Eu certamente tinha sido o “isso” da minha mãe algum dia. Será que ela tinha pensado em me abortar?
- Você quer fazer um aborto, é isso? Dá pra fazer?
- Eu não tenho dinheiro, sabe.
- Você pode pedir ajuda para o pai...
- Elisa, esquece o pai um pouco, ta? Eu estou aqui, pedindo a sua ajuda. Sua. Não a dele. Nem a de mais ninguém.
Ela tinha razão. Não era justo eu ficar forçando ela a lidar com um problema que, até então, estava só na minha cabeça. Eu tinha que ser compreensiva. E eu sabia como, sempre soube. Essa era a razão pela qual as pessoas sempre me contavam os segredos e pediam conselhos. Eu não julgava, eu só ouvia. Ouvir era o que eu fazia de melhor. Respirei fundo, olhei nos olhos verdes e inchados de minha amiga e aceitei que ela precisava de uma amiga, não de uma acusadora. Eu não poderia resolver a vida dela, mas talvez falar comigo ajudasse.
- O que você precisa de mim, flor? O que eu posso fazer por você? Eu faço o que for.
- Eu sei que faz – com um sorriso sincero ela segurou minha mão – Só preciso pensar no que fazer.
- Que foi isso que você pesquisou?
- Uma menina na internet disse que cair da escada pode causar um aborto. E ser atropelada também.
- Mas, Marcela, essas coisas também podem causar a sua morte. Então vamos tentar trabalhar de tal forma que sua vida não corra risco, ta?
- Então você não pensa em contar para o meu pai, né? Porque isso é a morte certa.
- Se a gente puder deixar o seu pai de fora é melhor. Mas se você for adiante com a gravidez, não pode demorar muito para contar, senão é pior. Você já pensou nisso?
- Em que?
- Em ter o bebê?
- Ah, Elisa, se eu pensei! Mas eu não nasci pra isso, pra ser mãe solteira. Como eu poderia? Meu pai ia me expulsar de casa, eu ia morrer de fome. Eu não sei fazer nada nessa vida! Só sei cuidar da igreja. E olha que belo trabalho eu faço...
- E se alguém te ajudasse?
- Quem? Ah, não diga “o pai”, por favor. Ele não vai querer lidar com isso, eu sei. Aliás, essa é a única coisa que eu sei.
- Você não me contou desse namorado...
- Não é um namorado. Foi um acaso.
- Sei... mas então, não dá pra fazer uma aborto em uma clínica e eu não vou te jogar na frente de um carro. Tem algum remédio ou algo assim?
Eu não tinha uma opinião formada sobre o aborto naquela época, mas estava muito propensa a ser contra. Eu pensei que Marcela também fosse, já que nós duas éramos meninas cristãs freqüentadoras da igreja. É o tipo de coisa que se espera, não? Mas eu não queria deixar o meu julgamento atrapalhar o julgamento dela. Não importava o que ela decidisse, eu a apoiaria. Eu faria o máximo para que a decisão não envolvesse infringir alguma lei ou colocar nossas vidas em risco. Estava tentando não pensar nas conseqüências.
- Tem esse tipo de coisa em outros países. Mas eu não tenho meios... você sabe. – assenti com a cabeça – Uma moça num fórum disse que era um milagre. Não sei se uma adolescente grávida é um milagre; parece mais uma tragédia! E eu não sei se teria coragem de, sabe? É uma vida, não é?
- Tem gente que diz que sim, gente que diz que não...
- Eu sempre achei que fosse. Mas eu não quero ser uma péssima mãe! E o que mais pode ser uma pessoa como eu? Não está certo, não está!
Passei meu braço por cima de seus ombros e apoiei sua cabeça no meu. Éramos crianças. Eu ainda tinha minhas Barbies no armário e jogava forca na internet. Quem, em sã consciência, deixaria uma decisão tão importante quanto a vida de outra pessoa em nossas mãos?
- Não acho que você precise decidir nada agora. Mas acho que você precisa descansar. Sabe? Gente grávida descansa o tempo todo.
- Você é muito engraçada. Ah, que bom que você está aqui! Eu não conseguiria passar por isso sem você.
Enquanto ela me abraçava eu não pude deixar de me sentir muito culpada, mas não parecia o momento certo para dizer que eu não estaria mais ao lado dela. Em minha cabeça, o refrão de “Stand by me” tinha ganhado um significado completamente diferente de horas atrás.
- Bernardo, sou eu.
- Geralmente eu falo alô e então você se apresenta, não é?
- Ai, moleque chato! Você não quer saber por que eu estou ligando a essa hora?
- Ah, eu quero?
- É, eu acho que não te interessa saber que eu já conversei com meu pai sobre a coisa de estudar no Veritas...
- Foi?
- Foi.
- E ai?
- Agora você está interessado?
- Não enrola, Elisa. Vai me dar uma crise de ansiedade.
- Peça desculpas.
- Ai, inferno! – ele bufou e eu abafei o riso – Por favor, me desculpe. Você é a rainha do universo. Como foi a conversa?
Eu resumi o almoço do dia anterior, sem conseguir esconder a minha felicidade. Ele também estava tagarelando sobre como seria um máximo quando estivéssemos estudando juntos. Apesar de sempre afirmar o contrário, eu queria poder voltar a passar tempo com ele. Foi bom ter alguém tão feliz quanto eu com tudo aquilo, alguém que entendesse o quanto era importante. Conversar com Bernardo era sempre a forma mais rápida de me alegrar.
- Você não pode vir pra cá? E vou ficar sozinha a semana toda. Você podia dormir aqui e a gente acampava na sala, fazendo maratona de animes!
- Na verdade, eu tenho planos...
- Não faça isso comigo! Sua mãe vai te levar pra onde desta vez? Isso é tão injusto! – a campainha tocou e eu fui atender, sem parar de reclamar ao telefone – Eu sei que há uma grande parcela de inveja, porque o meu pai nunca me leva pra lugar nenhum, mas você prometeu que passaria uns dias aqui comigo. Sua namorada mora aqui, peloamor!
Quando abri a porta fui surpreendida pela figura do meu melhor amigo parado no portão. Fiquei pasma.
- Ex namorada. – ele falou antes de fechar o celular num movimento rápido – ex.
Eu corri para abrir o portão, ainda com a cara de idiota surpreendida. Ao contrário de mim, ele tinha aquela cara de quem diz “eu sou mais esperto do que você”. Naquele momento ele era mesmo.
Depois de quase um ano sem vê-lo, precisei de um minuto para processar aquela imagem. Ele definitivamente estava mais alto, já devia estar chegando no metro e setenta. Os cabelos castanhos, fartos, ondulados e brilhantes continuavam rebeldemente espalhados pela sua cabeça. Ele também parecia mais forte. Mas o sorriso perfeito sob o nariz perfeito e os grandes olhos castanhos era o mesmo de sempre. Eu queria abraçá-lo, mas era estranho demais. Coisas que só a adolescência pode fazer por você. Eu segurava a grade do portão enquanto olhava abobalhada para aquela pessoa que eu mal podia reconhecer. Quando foi que ele tinha ficado tão bonito? Não importava.
- Você também pode abrir o portão e me deixar entrar, ou pode me deixar aqui do lado de fora como uma visita indesejada.
- É, acho que é a segunda opção.
Abri o portão e notei que a estranheza não era só minha. Ele ensaiou um abraço que não aconteceu e me deu um soquinho no braço. Entramos e eu coloquei o telefone de volta na base enquanto ele se esparramava no sofá. Ele estava muito parecido com o irmão. Isso me lembrou de fazer uma pergunta:
- E os meninos, onde estão?
- Ah, em algum lugar da Europa com a Dona Marisa. Depois que entraram na escola as o tempo que minha mãe consegue passar com eles é sagrado.
- E você não quis ir? Quer dizer, é um continente inteiro!
- Promessa é dívida. Estou aqui. Sem contar que tem todas as coisas para preparar e menos de um mês para as aulas começarem. Eu fiquei com ela em Paris até o Natal, depois meu pai nos encontrou para passarmos as festas com ele. Quando ele precisou voltar semana passada eu vim junto, mas os caras ficaram.
- E ela não ligou de ficar sem o bebê?
- Claro que ligou. Fez alguma chantagem, mas nada impossível de contornar. Pais são reis da chantagem.
- Se são! Quer comer alguma coisa?
Fomos para a cozinha. Enquanto devorava as bolachas do pote, ele me contava os detalhes da viagem e eu contava sobre a farra do final do ano. Ele elogiou meu novo corte de cabelo e eu induzi um comentário sobre a minha boa forma. Queria que ele me contasse sobre Fabrício. Será que ele sentia minha falta? Claro que não.
Meu relacionamento com os meninos Medeiros era muito antigo, por isso o dinheiro nunca foi um empecilho. Durante o divórcio dos pais, os três irmãos vieram para a propriedade dos avós em Celeste. Bernardo tinha os mesmos quatro anos que eu enquanto os gêmeos Fabrício e Renato eram um ano mais velhos. Minha avó tinha me levado a sorveteria naquele dia e eu estava levando o meu copinho para a mesa, com todo o cuidado para não derrubar, quando os três entraram correndo e fazendo barulho. Não demorou nada para que Bernardo tomasse um empurão e esbarrasse em mim, fazendo com que o sorvete e eu caíssemos no chão. Minha reação foi a mais natural possível: eu abri uma boca enorme e chorei sem parar por mais de meia hora. Os três ficaram muito quietos, assustados com meu escândalo. Nada me consolava. Eu estava suja, humilhada e sem sorvete. Não avia remédio. A babá dos meninos conversou com minha avó antes de ela desistir da coisa do sorvete e me levar embora. Eu nunca tinha sentido tanta raiva em minha vida.
Na manhã seguinte eu estava brincando no quintal da frente quando vi o menino que me derrubou parar no meu portão. A babá chamou minha avó, eu fui atrás, com a cara mais emburrada do mundo.
- Elisa, - minha avó começou, tentando me amansar – o Bernardo aqui veio pedir desculpas. Ele também quer brincar com você. Que tal?
Eu nunca consegui deixar atender a qualquer pedido da minha avó. Ela era tão boazinha, tão carinhosa. Concordei em deixar o menino entrar. No final do dia já éramos praticamente irmãos.
No dia seguinte conheci os irmãos e brincamos juntos todos os dias daquele ano. Quando o pai dele aparecia, ele não tinha problema nenhum em me levar junto para os programas. Minha avó já estava íntima dos avós, então ela não me impedia sair. Era a minha pequena família, com os irmãos que eu sempre quis ter, com os brinquedos que eu nunca precisei ganhar. E quando meu pai vinha me visitar ele também não via problema em levar os meninos para qualquer lugar que fôssemos. A única que se importava era a mãe, Marisa. Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-la, só vi algumas fotos. Ela tinha o cabelo muito loiro e liso, um nariz muito fino, a pele branca e pálida e olhos castanhos como os de Bernardo. Ela não parecia ser muito divertida. Quando o grande carro preto que ela mandava chegava para buscar os meninos, eu sabia que era um passeio que não me incluía. Naquele ano os meninos passaram uma semana com ela e só.
No ano seguinte os gêmeos tiveram que voltar para São Paulo, para ir para a escola. Bernardo ficou e nós passamos mais um ano brincando. Logo ele também precisava ir para a escola e teria que ir embora. Na nossa despedida fizemos uma promessa de sermos amigos para sempre. Se fosse com qualquer outra pessoa essa promessa teria perdido a validade antes de o carro chegar em São Paulo, mas Bernardo era diferente. Ele me ligava todas as sextas-feiras, na hora do jornal, e conversávamos por uns cinco ou dez minutos. Mesmo quando não tínhamos o que falar, ele me ligava. Não era pelo assunto, era o compromisso. E quem é que pode dar as costas a uma pessoa assim?
Os anos foram passando, nós fomos crescendo, mas eles sempre me incluíam em suas viagens e sempre que possível vinham passar um tempo em Celeste. E assim nossa amizade se sustentou. Com a internet ficou mais fácil conversar, mas ainda assim toda sexta, na hora do jornal, Bernardo me ligava.
Conforme eu fui crescendo, meus sentimentos foram mudando. E a mudança mais gritante (além do meu peso, quando fiz 12 anos) foi a descoberta da minha paixão por Fabrício. Eu sempre o achei a coisa mais legal no mundo. Ele tinha um carisma forma do comum. Conseguia qualquer coisa com um sorriso. Sempre liderou nossas brincadeiras, inclusive nas vezes que nos meteu em encrencas. Mas era só pedir desculpas e abrir o se sorriso que todos os pecados eram perdoados. Então era natural que no primeiro momento que meu pequeno coração se permitisse sentir qualquer coisa por qualquer garoto, que este garoto seria Fabrício. A minha tristeza foi que a puberdade não tão boa comigo como para ele. Enquanto eu amargava alterações hormonais que estragaram até a raiz do meu cabelo, ele parecia um príncipe, com seus cabelos castanhos reluzentes e seus olhos azuis encantadores. Ele não teve os problemas com acnes como Bernardo e não ficou com os braços e pernas compridos demais, como Renato. Ele era perfeito, mas aquela perfeição não combinava com a menina baixinha, gordinha e de cabelo arrepiado que eu era. Só me restava nutrir aquela paixão platônica até que eu ficasse bonita ou até que ele conseguisse me ver como uma menina de verdade. O problema de ser como uma irmã para um menino é justamente esse: você é uma irmã. Estudar com ele, deslumbrá-lo com meu intelecto e personalidade tinham se tornado um objetivo. Perder todo o peso extra tinha sido uma forma de fazê-lo olhar pra mim, me notar. O plano estava funcionando
- Você devia parar de pensar no Fabrício. Ele não é boa coisa, Elisa.
- Do que é que você está falando?
- Dessa sua cara de boba. Toda vez que alguém fala alguma coisa sobre o Fabrício você fica com essa cara de boba.
- Você tem cara de bobo.
- Boa resposta. É o melhor que pode fazer?
- Ah, você fica projetando as coisas em mim! Só porque você fica por ai suspirando pela Marcela não quer dizer que eu esteja suspirando por alguém.
Ele fechou a cara e falou mais baixo:
- Eu não suspiro pela Marcela.
- O que aconteceu com vocês? Ela foi para a casa do avô sem me contar. Uma hora vocês ficam o tempo todo perguntando um sobre o outro e de repente ninguém nem toca mais no nome de ninguém. Isso é muito estranho.
- Não tem conspiração nenhuma, Elisa. A gente terminou.
- Por quê?
Depois de algumas horas de insistência e uma refeição, ele finalmente se cansou e decidiu me contar, com um pacto de silêncio.
- Como se eu tivesse para quem contar.
- Não é para ter mesmo. Olha, você lembra que quando me apresentou a Marcela você ficou com medo de que ela quisesse alguma coisa com o Fabrício?
- Eu?
- É. Enfim, eu também achei estranho. Acontece que eu acho que ela deveria ter mesmo ficado com o Fabrício. Eles combinam mais.
- Do que é que você está falando?
- No feriado de outubro ela foi para São Paulo me encontrar. Foi uma surpresa, eu achei legal. Acontece que ela não queria só conversar. Ela tinha uma idéia na cabeça.
- Que idéia?
- Ela queria cruzar a linha. Sabe?
- Não.
- Ela queria mais que ficar de mãos dadas.
- Aham. E..?
- Ela tinha idéias, Elisa! – ele estava ficando desesperado e vermelho.
- Que idéias?
- Ideias sexuais!
- Oh... Oh! Ai, meu Deus! Não! Ela é filha do pastor! Ela é professora da escolinha dominical! Marcela não tem idéias assim!
- Mas teve.
- E daí?
- E daí o que?
- Daí as idéias se tornaram fatos?
- Que pergunta é essa?
- Vocês chegaram aos finalmente?
- Eu não vou responder isso!
- Claro que vai! Por que você não responderia?
- É vergonhoso!
- Não seja besta! Sou eu, a rainha da terra da vergonha.
- É, e está querendo me tornar prefeito de lá?
- Sério, você não pode aparecer aqui com um elefante desse tamanho e esperar que eu respeite seu silêncio.
- Nada aconteceu. Satisfeita?
- Chocada é a palavra.
- Não parecia... correto.
- Sei lá. Eu tenho umas idéias sobre isso.
- Você tem?
- Claro. Eu não tenho nada contra quem quer fazer, mas eu prefiro esperar.
- Acho que eu também.
- Tá vendo só? Um baita drama por nada. Ser virgem é normal na nossa idade, eu acho. Aqui pelo menos é. Por isso as pessoas casam cedo, para poderem fazer coisas.
- Deve ser.
- E o que aconteceu?
- Ela ficou brava e foi embora. Nunca mais atendeu minhas ligações, me bloqueou no MSN e não responde meus e-mails. Não nos falamos desde então.
- Isso explica algumas coisas. Uma mulher rejeitada é osso duro mesmo.
- Não queria magoar ninguém. Verdade!
- Eu sei disso, eu sei. Quer jogar videogame?
Não sei por que, mas eu precisava mudar de assunto. Aquela tinha me deixado muito irritada depois que o choque passou. O que a Marcela esperava? Será que ela estava certa em esperar alguma coisa? E o que eu esperava? Ela era linda, loira, desejável. Se ela também estivesse ciente de suas qualidades, talvez pensasse que era irresistível. Isso deve doer. Nunca passei por esse problema, uma vez que sempre tive problemas de auto-estima. Mas por que ela não conversou comigo sobre aquilo? Nós éramos as melhores amigas, as únicas amigas. Tinhamos sobrevivido ao ginásio juntas, sozinhas. Ela porque era tímida demais para ser popular e eu porque achava as pessoas da minha sala idiotas demais para querer conversar com elas. Esperava que ela me contasse algo assim. Talvez não fossemos tão boas amigas. Talvez fosse só conveniência.
Depois de perder todas as partidas de luta por falta de atenção, busquei cobertores no quarto e pedi uma pizza. O tempo passava rápido demais quando estava com Bernardo. De barriga cheia e devidamente acomodados, conversamos até muito tarde. Finalmente eu adormeci no meio de um filme chinês de luta. Naquela noite sonhei que todos os meus amigos tinham crescido, menos eu. Ao fundo se ouvia “Ben”. Parece bobo, mas foi desolador.
Na manhã seguinte saímos cedo com o pretexto de pescar, mas passamos o dia na beira do rio conversando sobre nossas expectativas e algumas amenidades. Assim a semana passou, com muita comida, muita conversa e nenhuma pescaria de verdade. No final da tarde de sexta-feira nos despedimos, pela primeira vez com a certeza de que nos veríamos em breve. Enquanto olhava ele indo embora conseguia ouvir claramente “Stand by me” na versão dos Beatles. Parecia perfeito.
Qual não foi minha surpresa quando eu mal fechei a porta o meu telefone tocou. Olhei pela sala para ver se Bernardo tinha esquecido alguma coisa, mas era outra pessoa ligando: Marcela. Ela queria saber se eu estava sozinha e se podíamos conversar. Então minutos depois eu estava abrindo o portão para uma Marcela abatida e chorosa. Ao sentar no sofá ela desatou a falar e chorar. Não consegui entender nada. Uns vinte minutos e dois copos de água com açúcar depois ela conseguiu falar, entre soluços:
- Eu estou grávida.
Naquele instante o chão sumiu debaixo dos meus pés e eu tive que segurar com força no encosto do sofá para não cair. Numa fração de segundo pensamentos demais passaram pela minha cabeça, o que fez com que ela imediatamente começasse a doer. Como grávida? De quem? Quando? Será que Bernardo tinha mentido pra mim? Será? Não, ele não mentiria. O que a Marcela faria? O que o pai dela faria? O que eu faria se fosse comigo? O que eu faria?
- Você tem certeza?
- Já é o terceiro mês que não vem pra mim. Só pode ser.
Terceiro mês? Outubro não conta. Novembro, dezembro, janeiro. Três meses. Ele mentiria mesmo?
- Outubro...
- Como você sabe?
- Eu fiz uma conta. Como isso aconteceu?
- Foi um acidente! Não era para acontecer daquele jeito. Eu estava em São Paulo, confusa, não sei!
- Tá! Entendi – conforme a mentira se confirmava eu aia ficando mais irritada. Não podia perder o foco – E o que você vai fazer? Já falou com o... com o pai?
- Meu pai? Lógico que não!
- Não, o pai da criança!
Ela começou a chorar novamente e eu já não conseguia mais entender nada. Minha cabeça estava latejando. Eu fui pra a cozinha buscar mais água e uma aspirina. Duas aspirinas.
Talvez fosse muito egoísta de minha parte pensar em qualquer coisa que não a gravidade da situação da minha amiga. A gravidez da situação. “isso lá é hora de fazer piada?”, pensei com uma risada nervosa. Infelizmente, minha mente funcionava a toda capacidade e eu não conseguia me concentrar no problema. Pior do que Marcela se tornar mãe era Bernardo se tornar pai. Pai. Eu bem sabia como era horrível quando um pai é novo demais para assumir a responsabilidade. Eles iam culpar a Marcela e depois passar o resto da vida culpando a criança. Uma criança não deveria ter outra criança. Eu deveria ter crescido com uma mãe e um pai. Eu devia ter amigos que me contariam coisas importantes como a primeira vez. Ou até amigos que não mentiriam na minha cara sobre a primeira vez. Na verdade, eu queria mesmo ter amigos responsáveis que não engravidassem com quinze anos de idade. Eu não tinha nem completado meus quinze anos ainda... O que importava isso? Que diferença faz a nossa idade quando tem um elefante, não, um mamute albino sentado no sofá da sala?
- Acho que a gente podia ligar para o Bernardo. Ele ainda deve estar aqui na cidade. Ou pelo menos perto daqui.
- O que tem o Bernardo com isso? – ela me perguntou entre soluços – Eu não tenho coragem pra encontrar com ele.
- Como assim, “o que tem ele com isso”? Ele é o pai, não é?
- Não – ela parou por um momento, pensando – Não, não tem nada a ver com o Bernardo, definitivamente.
Meu estômago revirou mil vezes em um segundo e eu fui obrigada a me sentar para não cair. Se por um lado havia a possibilidade de meu melhor amigo não ter mentido pra mim, pelo outro havia a certeza de que eu não conhecia aquela menina sentada ao meu lado. A mesma menina que se sentou ao meu lado todos os dias pelos últimos quatro anos. Grávida de quem, meu Deus? Grávida de quem?
- Bom, então precisamos achar esse pai. Quem é?
Ela me olhou, com receio. Continuou olhando até que o receio se transformou em certeza.
- É melhor que você não saiba. É para o seu bem.
- Meu bem? Marcela, presta atenção: isso não é sobre mim. Mas também não é sobre o pai ou sobre você. É sobre a criança. Você não vai contar para o pai? Vai enfrentar tudo sozinha?
- Eu ainda não sei o que vou fazer.
- Não sabe? Como assim?
- Eu olhei na internet, eu perguntei por ai. Existem maneiras de não ter que lidar com isso.
Eu fiquei profundamente irritada com a forma como ela disse “isso”. Eu certamente tinha sido o “isso” da minha mãe algum dia. Será que ela tinha pensado em me abortar?
- Você quer fazer um aborto, é isso? Dá pra fazer?
- Eu não tenho dinheiro, sabe.
- Você pode pedir ajuda para o pai...
- Elisa, esquece o pai um pouco, ta? Eu estou aqui, pedindo a sua ajuda. Sua. Não a dele. Nem a de mais ninguém.
Ela tinha razão. Não era justo eu ficar forçando ela a lidar com um problema que, até então, estava só na minha cabeça. Eu tinha que ser compreensiva. E eu sabia como, sempre soube. Essa era a razão pela qual as pessoas sempre me contavam os segredos e pediam conselhos. Eu não julgava, eu só ouvia. Ouvir era o que eu fazia de melhor. Respirei fundo, olhei nos olhos verdes e inchados de minha amiga e aceitei que ela precisava de uma amiga, não de uma acusadora. Eu não poderia resolver a vida dela, mas talvez falar comigo ajudasse.
- O que você precisa de mim, flor? O que eu posso fazer por você? Eu faço o que for.
- Eu sei que faz – com um sorriso sincero ela segurou minha mão – Só preciso pensar no que fazer.
- Que foi isso que você pesquisou?
- Uma menina na internet disse que cair da escada pode causar um aborto. E ser atropelada também.
- Mas, Marcela, essas coisas também podem causar a sua morte. Então vamos tentar trabalhar de tal forma que sua vida não corra risco, ta?
- Então você não pensa em contar para o meu pai, né? Porque isso é a morte certa.
- Se a gente puder deixar o seu pai de fora é melhor. Mas se você for adiante com a gravidez, não pode demorar muito para contar, senão é pior. Você já pensou nisso?
- Em que?
- Em ter o bebê?
- Ah, Elisa, se eu pensei! Mas eu não nasci pra isso, pra ser mãe solteira. Como eu poderia? Meu pai ia me expulsar de casa, eu ia morrer de fome. Eu não sei fazer nada nessa vida! Só sei cuidar da igreja. E olha que belo trabalho eu faço...
- E se alguém te ajudasse?
- Quem? Ah, não diga “o pai”, por favor. Ele não vai querer lidar com isso, eu sei. Aliás, essa é a única coisa que eu sei.
- Você não me contou desse namorado...
- Não é um namorado. Foi um acaso.
- Sei... mas então, não dá pra fazer uma aborto em uma clínica e eu não vou te jogar na frente de um carro. Tem algum remédio ou algo assim?
Eu não tinha uma opinião formada sobre o aborto naquela época, mas estava muito propensa a ser contra. Eu pensei que Marcela também fosse, já que nós duas éramos meninas cristãs freqüentadoras da igreja. É o tipo de coisa que se espera, não? Mas eu não queria deixar o meu julgamento atrapalhar o julgamento dela. Não importava o que ela decidisse, eu a apoiaria. Eu faria o máximo para que a decisão não envolvesse infringir alguma lei ou colocar nossas vidas em risco. Estava tentando não pensar nas conseqüências.
- Tem esse tipo de coisa em outros países. Mas eu não tenho meios... você sabe. – assenti com a cabeça – Uma moça num fórum disse que era um milagre. Não sei se uma adolescente grávida é um milagre; parece mais uma tragédia! E eu não sei se teria coragem de, sabe? É uma vida, não é?
- Tem gente que diz que sim, gente que diz que não...
- Eu sempre achei que fosse. Mas eu não quero ser uma péssima mãe! E o que mais pode ser uma pessoa como eu? Não está certo, não está!
Passei meu braço por cima de seus ombros e apoiei sua cabeça no meu. Éramos crianças. Eu ainda tinha minhas Barbies no armário e jogava forca na internet. Quem, em sã consciência, deixaria uma decisão tão importante quanto a vida de outra pessoa em nossas mãos?
- Não acho que você precise decidir nada agora. Mas acho que você precisa descansar. Sabe? Gente grávida descansa o tempo todo.
- Você é muito engraçada. Ah, que bom que você está aqui! Eu não conseguiria passar por isso sem você.
Enquanto ela me abraçava eu não pude deixar de me sentir muito culpada, mas não parecia o momento certo para dizer que eu não estaria mais ao lado dela. Em minha cabeça, o refrão de “Stand by me” tinha ganhado um significado completamente diferente de horas atrás.
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