terça-feira, 24 de agosto de 2010

Atualizações

Depois de uma período de invenções e reformulações (sim, os textos abaixo foram jogados no lixo e eu comecei de novo) decidi trabalhar por um tempo em coisas menores e menos ambiciosas. Não estou deixando o trabalho principal de lado (not at all), é só que acho que é importante sair da caixa e tentar coisas novas. Ousar. E atualizar o blog com mai frequência, com certeza!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

3 - Tempo perdido na praia

O mês de janeiro começou bem estranho e não posso dizer que terminou como qualquer outro mês antes daquele. Eu estava as voltas com uma amiga grávida, uma investigação sobre quem seria o pai da criança e com os preparativos para ir embora. Mas a coisa que acabou me dando trabalho foi o meu pai.
Nossa relação sempre foi boa e eu não sentia que precisava de mais atenção, carinho ou dinheiro. Bom, talvez dinheiro, mas eu não era de pedir. Eu era independente? Sim. Ele passava muito tempo fora? Sim. Ele foi praticamente ausente na primeira metade da minha vida? Também. Mas quando decidiu assumir o papel de pai, ele fez isso muito bem. Tão bem quanto ele poderia. Se eu pudesse usar uma palavra para descrever meu pai, seria distraído.
Todas as vezes que eu tinha um compromisso e ele se atrasava para me buscar ou não aparecia, eu sabia que não era por mal. Ele perdia a noção do tempo com muita facilidade e esquecia as coisas. Foi com esses argumentos que ele começou aquela conversa muito estranha no sábado, quando chegou.
- Sabe, Elisa, eu achei que teríamos mais tempo juntos.
- Mais tempo?
- É. Nunca me passou pela cabeça que você quisesse ir embora.
- Eu já falei que...
- Eu sei, eu sei. Acontece que eu não vi o tempo passar. Sinto muito, eu não vi mesmo. Um dia eu chego aqui e você é uma menininha esperta demais para sua idade, no outro você já está no colegial e daqui a pouco vai querer ter a sua casa, o seu carro e a sua vida.
- Normal, né?
- Normal, sim. Mas é também muito triste. Por isso decidi recuperar o tempo perdido.
- Pai, o que é que você está pretendendo?
- Nós vamos viajar, só eu e você. Tirei o resto do mês de férias. São duas semanas, mas vamos fazer o máximo com isso.
Meu queixo caiu alguns centímetros com aquela notícia. Viajar? Não era o melhor momento, definitivamente. As aulas começariam na segunda semana de fevereiro, antes do carnaval. Não havia tempo para viagens, com uma Marcela grávida do outro lado da rua.
- Pai, de verdade, não precisa. Sabe, eu não vou morrer, só vou estudar.
- Mas você vai crescer! – ele gritou, exaltado – Vamos fazer isso sem brigas, ok? Por favor.
Fiquei olhando para aquela pessoa que eu percebi não conhecer tão bem assim. Eu sabia dos seus horários, dos seus hábitos, dos seus gostos, mas eu nunca tinha entrado na cabeça do meu pai. Não sabia como ele se sentia, o que pensava. Eu sabia que ele era meu fã número um, como ele mesmo dizia, mas não fazia idéia do quanto ele se importava. Isso me fez pensar no quanto eu me importava. Estava tão desesperada para ir embora que não pensei no quanto eu queria ficar, no quanto me doeria partir. Como seria a vida dali por diante? Como seria ir para uma cama estranha sabendo que meu pai não iria me dar um beijo de boa noite? Ele não me acordaria pela manhã com aquele irritante tapa nos pés e não elogiaria o meu café. Nós não assistiríamos mais CSI juntos, então não apostaríamos mais no assassino. Ele não me carregaria para a cama quando eu adormecesse no meio de uma das nossas maratonas de filmes. Ele estava certo, não faríamos mais parte da vida um do outro. Não do cotidiano, pelo menos. Eu sabia do seu esforço, sabia de tudo que tinha desistido para estar comigo. Perder tudo o que batalhamos para construir seria muito desolador.
- Acho que vamos viajar então – eu disse com a voz embargada – Que tipo de mala eu devo arrumar para nós dois?
- Vamos a La playa! – ele cantarolou hilariamente. Era meu pai, só meu. O pior foi a bendita música que grudou na minha cabeça.

E estrada prometia ser longa e cansativa, mas ele me surpreendeu com a notícia de que não iríamos de carro.
- Como assim, um helicóptero? Você está torrando a poupança da faculdade nessa viagem?
- Um amigo me devia um favor.
- Um amigo?
- É, pare de ser curiosa! Não está emocionada?
A palavra era aterrorizada. Até onde eu me lembrava, altura e abelhas estavam no topo da lista de coisas que me faziam tremer. Enquanto o taxi nos levava para uma fazenda próxima onde o bicho voador aguardava, eu ia fazendo minhas orações só por precaução.
A viagem, que deveria ter sido maravilhosa, foi tão emocionante quanto o fundo da minha mochila. Passei o tempo todo procurando alguma coisa imaginária dentro da mala para não ter que olhar pela janela ou para qualquer outro lugar que me mostrasse a qual distância que estávamos do chão. As poucas vezes que me arrisquei a espiar, senti meu estômago se transformar em um tijolo e tive aquela incômoda sensação de estar caindo. Não foi nada agradável. Tentei me concentrar nas músicas que tocavam no fone de ouvido e ignorar o resto.
Finalmente no chão - meu tão adorado chão – agradeci aos céus por ter sobrevivido e senti o suor começar a secar na minha testa e em minhas mãos.
- Você está horrível, Elisa. Verdade
- Eu acredito em você, pai.
Por mais que fosse um comentário exagerado, ficar ao lado dele não melhorava minha imagem. Ele parecia realizado, lindo com seus óculos escuros e sua camisa branca. Talvez minha mãe não fosse tão bonita, talvez eu me parecesse com ela. Só podia ser porque, verde como eu estava, não havia semelhança nenhuma com aquele moço de pé ao meu lado, além da cor dos cabelos.
- E agora? A gente acampa aqui embaixo do helicóptero?
- Só se você quiser, eu tenho um lugar melhor para ficar.
No carro fui observando a paisagem procurando descobrir o nome do lugar. EU me lembrava vagamente das minhas visitas ao litoral, sempre na Praia Grande ou São Vicente. Gostava muito da primeira, por causa da areia fina e quentinha, onde eu brincava de bife à milanesa. Cansada de procurar por um ônibus que dissesse “prefeitura de...”, comecei a pensar nos dias que viriam. Quando se é criança a gente só precisa de água e de outras crianças para se divertir na praia. Isso e sorvete. Mas o que será que gente adulta fazia na praia? Certamente não me encontrariam por ai jogando frescobol. E nem o meu pai fazendo longas caminhadas pela beira do mar. Uma coisa sabíamos fazer muito bem: comer. Talvez fosse a nossa salvação. Comeríamos dia e noite por duas semanas ou até explodirmos, o que viesse primeiro. Legal...
- Chegamos!
“Finalmente” pensei, já enjoada de viajar. O sol estava alto e quente, o dia estava lindo. E nós estávamos parados em frente a uma simpática casa branca, cheia de plantas. Sim, eu cheguei a pensar que houvesse mais plantas do que paredes. Fiquei preocupada que o os donos da casa fossem dois grilos enormes, verdes e nojentos. Apesar disso, era um lugar muito bonito e uma rua muito estreita. Do outro lado havia um morro com muita vegetação. Ao menos era calmo. “Impossível estarmos próximos da água”, foi meu segundo pensamento enquanto ajudava a descarregar as malas. Até onde eu sabia, toda praia tinha uma avenida chamada beira-mar. Não que meu senso de direção fosse bom.
- Você vai gostar daqui – ele abriu o portãozinho branco e entramos na mata atlântica que era aquele quintal – é um lugar mágico.
- Mágico? O que tem de mágico? Uma joaninha gigante?
- Você vai ver.
Subimos uma escada até a varanda de cimento queimado vermelho. Era rústico, mas muito bonito. Uma brisa morna começou a soprar e fechei meus olhos. Uma sensação boa percorreu meu corpo. Mal podia esperar para tirar meus sapatos e pisar naquele chão geladinho. Ouvi o som da porta destrancando e me virei para entrar. Meu queixo despencou alguns centímetros. Atrás da porta havia uma sala enorme, com três ambientes. Não foram os móveis lindos e nem o piso coberto com tábuas largas de madeira clara que me fizeram soltar as malas no chão, mas sim a porta dupla de vidro que separava a sala do outro quintal, iluminando todo o lugar. Atrás da porta, um gramado verde com um caminho de pedras que levavam a uma cerca branca de madeira, como nos filmes. Atrás da cerca, a areia branca, fina e o mar, verde em todo o seu esplendor.
- Pai...
- Eu sei. É mágico, como eu disse.
- É lindo.
A sala tinha grandes janelas com cortinas brancas e finas. Na parede sem janelas tinha uma grande estante com televisão, e dois sofás cor de areia muito fofos e ainda um tapete branco peludo. Sob a luz da porta, duas poltronas verdes e uma mesa de café na mesma cor do chão tinham sido posicionadas para ter uma boa visão do quintal e da praia, próximas a uma grande mesa de jantar. Era realmente muito diferente da minha casa.
- O que você quer fazer? Comer? Ver o resto da casa? Comer? Se trocar?
- Estou com fome sim, mas quero ver o meu quarto e trocar de roupa. Por favor?
Subimos uma escada entre a sala e a cozinha e chegamos a um corredor com cinco portas. Escolhemos os dois quartos com vista para o mar. Imaginei como seriam as minhas manhãs assistindo o sol nascer.
O quarto seguia a temática da casa, com a madeira clara, as paredes e cortinas brancas. A cama de casal ficava ao lado da janela e um charmoso armário na parede oposta. De frente para a cama, uma penteadeira com um espelho. Desejei que aquele decorador tivesse passado pelo meu quarto. Coloquei a mala sobre a colcha florida e abri a janela. “Lindo” foi só o que consegui pensar.
Assim que terminei de ocupar cada gaveta do lugar e saciar a minha neurose, coloquei um vestido azul claro estampado e uma sapatilha vazada. A coisa que eu mais detestava das praias era a necessidade de estar descalça o tempo todo. Tinha horror a pés.
Quando eu desci, meu pai me esperava junto á porta da varanda. Com a cabeça no portal ele parecia tão distante que me perguntei se estaria em outro lugar ou em outro tempo. Ao notar minha presença, segurou minha mão e me guiou até a praia. Eu me sentia caminhando em câmera lenta ao som de “Can’t help falling in Love”. Nós dois sorriamos, bestificados com o lugar. A areia era clara e fina, quente demais para pés descalços. A casa ficava no lado esquerdo da praia, próxima a um regato e ao píer. A brisa morna voltou a soprar sob o sol forte e eu comecei a suar. Estava quente demais. Talvez eu estivesse usando roupas demais. Olhei para o outro lado e vi que não estava em uma praia infinita como as que já tinha visitado. Estava praticamente vazia, só um par de senhoras escondidas debaixo do guarda-sol e de chapéus de palha, estrategicamente posicionadas próximas ao carrinho de batidas estacionado perto de um muro baixo de pedras. Não vi um quiosque e muito menos a rua.
- A praia é fechada, pai?
- Ah, quase. A entrada fica meio escondida, naquele pedaço de terra entre a montanha e o muro. Ali, na frente do píer, fica a propriedade de um cara muito rico, dono de uma rede de lojas materiais de construção. A lancha parada é dele também, mas outras pessoas por aqui chegam pelo mar.
- Só aquele caminho ali?
- Exato. E não tem quisque também.
- E nem ondas – observei – o mar é muito calmo aqui.
- É porque estamos voltados para o continente. Nas praias que dão para o mar tem bastante onda.
- Continente?
- É. Você não sabe onde está?
- Numa ilha do Pacífico Sul?
- Em Ilhabela, sua boba. Na praia da Feiticeira. É uma das mais badaladas durante a temporada.
- Feiticeira?
- Isso mesmo. Top top.
- Agora entendi a coisa da mágica – ele sorriu em resposta e respirou o ar salgado e quente da praia – Agora a gente pode comer, se você quiser.
Talvez fosse dispensável dizer, mas ele quis me levar a um restaurante de frutos do mar. Achei relevante, porque foi a primeira vez que entramos em um restaurante que não envolvia comida italiana ou rodízio de carnes. Rodando pela ilha vi todo o tipo de praia – desde aquelas que têm barcos atracados até aquelas com criancinhas correndo atrás do carrinho de sorvete. Senti uma vontade enorme de explorar seguida de uma vontade enorme de alguém que me acompanhasse nas minhas expedições. Não deixei que isso transparecesse, já que meu pai fazia tanta questão de que passássemos tempo juntos. “Ele certamente pensou em como fazer o tempo passar”, pensei. Sem o nervosismo ocupando meu estômago, a fome falou mais alto e todos os meus pensamentos giraram em torno de comida até um pouco depois da refeição. Então, de bucho cheio e exausta da viagem, meus pensamentos começaram a girar em torna na minha cama e de um ventilador.
Quando acordei, o sol estava baixo, preparando o crepúsculo. Imediatamente pensei na palavra crepúsculo e como ninguém a usava. Lembrei daquela música do grupo “The Platters” que começava “When the twilight is gone (ah, ahh, ahhhh) and no songbirds are singing (ahhhhh)” e comecei a rir como uma boba debruçada na janela. Já começava a sentir fome de novo, mas não podia manter essa dieta se quisesse caber no uniforme que meu pai tinha encomendado. Enquanto tentava me imaginar dentro do uniforme que tinha visto na brochura, a imagem do meu pai com o cabelo repartido de lado e cheio de gel voltou a minha cabeça, junto com a imagem de meu tio Osvaldo com cabelo. Era muito estranho. Talvez os bigodes enormes que ele usava servissem para compensar a falta que o cabelo fazia. Isso, cabelo na cabeça, não importa o lugar. Mais uma risada besta pela janela, assistindo a água mudar de cor. Talvez tenha sido alta demais, porque um moço que estava agachado perto do portão olhou para trás. Entrei em pânico quando ele olhou direto pra mim e senti meu rosto queimar. Não estava acostumada com gente olhando pra mim. O sorriso se desmanchou em uma cara assustada e logo me endireitei, mexendo na cortina para disfarçar. Ótimo disfarce. Quando olhei de novo para o moço ele sorriu. Imediatamente dei três passos para trás fugindo do campo de vista. Não estava acostumada a receber sorrisos.
Não é como se eu ligasse para quando riam de mim. Estava acostumada a isso. Conhecia pessoas que esperavam ansiosamente que eu gaguejasse durante uma leitura em voz alta, que tropeçasse em uma carteira no caminho para a lousa ou que tomasse uma bolada em cheio na aula de educação física. Eles queriam que eu desse algum motivo para rir, o que me obrigou a ser extremamente cuidadosa na escola. Mas isso não foi suficiente. Começaram a caçoar do som da minha voz, da forma como eu erguia a mão desesperada para responder qualquer pergunta, dos meus cabelos sempre presos em um rabo de cavalo embaraçado, da minha jaqueta azul, do fato de eu nunca ter beijado ninguém. Minha existência era motivo de chacota naquele lugar. Eu sempre fiz um bom trabalho ignorando as risadinhas às minhas costas, mas não era de ferro. Nos piores dias, chegava em casa, apagava todas a luzes, me escondia debaixo do edredom e chorava alto ao som de alguma música que me deixava muito triste. No topo da lista “All by myself”, “I should have known better”, “Fake plastic trees”, “Teatro dos vampiros” e qualquer uma do Evanescence. Depois de algumas horas no fundo do abismo eu estava de pé e pronta para jantar.
A coisa é que o moço não estava rindo de mim, ele estava sorrindo pra mim. E não era um moço velho e feio. Se fosse, eu certamente teria sorrido de volta e acenado. Ele era lindo e jovem. E eu tinha o mal hábito de sempre sonhar e fantasiar com o menino mais fora de alcance que eu conhecesse, por isso ao invés de sorrir, acenar e ser charmosa para compensar minha risada esquisita, eu tive que agir como a esquisita que sou. Quando estou despreparada, pessoas bonitas tendem a quebrar minhas pernas. E eu insisto em me torturar revivendo repetidas vezes o momento constrangedor, com direito a suspiros inconformados de “nossa...” e “ai, meu Deus”
- Por que você está tão corada? – ele perguntou enquanto jantávamos e eu balançava a cabeça, murmurando xingamentos para mim mesma - A gente mal ficou no sol!
- Por nada, pai – e fiquei mais vermelha com a memória, levantando da mesa apressada – É o calor.
- Aqui você deve usar muito repelente, é cheio de borrachudos. E faça o favor de ligar o repelente na tomada se for dormir com a janela aberta.
- Pode deixar.
Apoiei os cotovelos no peitoril da janela e apoiei o queixo em minhas mãos e comecei a imaginar como seria o mundo se eu fosse um pouco mais auto-confiante e não deixasse que meu próprio julgamento me massacrasse o tempo todo. Se eu conseguisse encontrar alguma beleza atrás das minhas olheiras e além dos meus culotes. Se eu conseguisse gostar de alguma coisa em mim além do meu gosto para filmes e da minha habilidade de ouvir as pessoas. Um medo tomou conta de mim e senti um calafrio correr na minha espinha. Como eu poderia sobreviver naquele lugar? Como eu poderia passar os dias me comparando e competindo contra aquelas meninas cheias de dinheiro e senso de moda? Elas deviam ser magras e bonitas. Eu seria a mais inteligente. E desde quando a inteligência é suficiente para tornar alguém popular? Em que universo Fabrício ia querer namorar comigo olhando para meu boletim? Eu não era loira, não tinha cabelo liso, não era alta e nem magra. Tudo estava contra mim, inclusive eu mesma. Teria que passar os próximos três anos como tinha passado os últimos quatro: em silêncio e no canto da sala.
Com o corpo amolecido pelo calor e por meus pensamentos, me arrastei para fora do quarto, com a intenção de ver o mar de perto. Ainda não tinha me molhado. Deixei meu pai adormecido na rede na varanda e fui pulando o caminho de pedras até chegar à areia. Para a minha surpresa, ainda estava quente. Apesar de nenhum poste iluminar a praia, a noite estava muito clara. O luar que apaga as estrelas enchia o lugar. Era realmente impossível não se apaixonar por aquele lugar. Talvez eu devesse me mudar para o litoral. A vida parecia muito melhor naquela praia vazia onde ninguém ia ficar reparando nos meus pés.
Corri para perto da água e ensaiei por algum tempo molhar os pés. Tomei coragem e vi que também estava quente. Comecei a brincar de chutar e me molhar com a água que espirrava. Por que não andar um pouco mais, até a água bater na minha canela? Um, dois, três passos e pronto, um buraco. Certo, eu estava com água pela minha cintura, mas não havia correnteza. Era como uma grande piscina de água salgada e morna. Mergulhei, para molhar minha cabeça e me livrar do calor. Esse era o pretexto, mas a verdade era que eu queria mesmo brincar na água. A escuridão e o silêncio não me incomodavam, na verdade me acolhiam.
Lá estava eu, rindo e brincando como um caipira na praia (!) quando notei a figura parada a pouco mais de um metro de mim, na areia. Imediatamente me coloquei de pé e qualquer traço de felicidade desapareceu do meu rosto. Senti medo, mas logo depois lembrei que estava a menos de dez metros do meu pai. Ele me ouviria gritar.
- Calma, - o moço falou, me mostrando as palmas como um bandido rendido – eu não quis te assustar. Eu só precisava ver de perto.
Caminhei com passos duros para fora da água, o vestido encharcado colado no meu corpo e pesado me tirava um pouco o equilíbrio. Era o moço bonito de novo. Estava enganada então: ele não sorria pra mim, mas sim de mim. Isso me deixou irritada e um pouco ofendida.
- O show acabou – disse com aspereza.
- Nossa – ele coçou a cabeça, sem jeito – eu não quis te ofender também. É que eu te ouvi hoje mais cedo e fiquei com a sua risada na cabeça a tarde toda. Quando ouvi de novo precisava ver que cara tinha a sua risada.
Parei a alguns passos de distância com os braços cruzados e uma expressão desconfiada. Ele parecia um daqueles caras que aparecem nos sonhos em que fazemos cruzeiros pelas ilhas gregas. O cabelo escuro e bem curto não tirava a atenção da forma fantástica como seus ossos desenhavam o rosto mais perfeito que eu já tinha visto até então. As sobrancelhas grossas e a barba por fazer davam a ele um ar selvagem, mas as roupas diziam o contrário. A camisa branca sobre o peito bem definido era bem passada e a bermuda cáqui também. Parecia um modelo em um editorial de verão. Aquele sorriso sincero acabou por me desarmar. Eu queria que ele me colocasse no bolso e me levasse embora, porque eu me sentia pequena demais perto de tanta perfeição. Senti que meu coração batia tão forte e tão alto que talvez até ele pudesse ouvir, então respirei fundo e disse quase num sussurro:
- É a minha primeira vez aqui.
Imediatamente pensei na infinidade de frases melhores que eu poderia ter dito e comecei a me chicotear mentalmente.
- É mesmo? – ele caridosamente alimentou a conversa
- Eu vim com meu pai – quantos anos ele teria? Vinte, no máximo. Seis anos é muito tempo? Ah, praticamente cinco. Cinco anos não é nada. Bom, mas provavelmente existe uma vida inteira de experiências nos separando. Ai sim, até seis meses é muito tempo. De qualquer forma a última frase fez ele ter certeza de que eu acabei de sair do maternal. Que coisa imbecil para se dizer...
- Ele escolheu o lugar? Uma boa escolha. Eu sou o Fernando, por falar nisso – ele me estendeu a mão e eu apertei sem soltar o outro braço do corpo. Apesar de estar arrepiada do que deveria ser frio, estava morrendo de calor.
- Elisa. Desculpa o mau jeito. Eu não sou tão malcriada normalmente.
- E como você é normalmente?
- Como? – que raio de pergunta era aquela? Ele era analista, por acaso? – Acho que sou calada normalmente, mas muito falante com meus amigos.
- Duas pessoas diferentes, então?
- Acho que sim...
- Então posso te pedir um favor? –assenti lentamente com a cabeça, temendo que se balançasse rápido demais ele desapareceria como em um devaneio – Seja minha amiga. Quero e ouvir falar.
Meu queixo caiu alguns centímetros. Ele queria me ouvir falar. Eu queria morrer naquele momento, pois tinha certeza de que a vida não podia ficar melhor. Ele devia ser um serial killer, um ricaço excêntrico, algo do tipo. Não era normal um homem lindo daquele sair pedindo para ser amigo das pessoas.
- Tá... – ele sorriu e eu sorri um sorriso besta em retorno.
- Então eu vou deixar você se secar e te espero para conversarmos um pouco mais, pode ser?
- Tá...
- Não demore!
Corri para dentro da casa inconformada. Meu pai ainda estava dormindo na rede e não parecia querer acordar. Entrei no quarto ainda chocada e vesti rapidamente uma bermuda branca que parecia com algo que se usa na praia e uma blusa verde que me fazia parecer mais magra. Prendi o cabelo com o elástico e corri para a praia, com medo de ter tomado sol demais e estar tendo devaneios. Felizmente, insanidade não era o meu problema. Talvez o meu sorriso bobo fosse. Ele estava parado exatamente onde eu o havia deixado, lindo e perfeito sob o luar. Já havia lido sobre aquilo, sobre a mágica do momento, mas é algo que não se pode descrever. Dominei o nervosismo e caminhei em sua direção lentamente, pois não queria parecer muito afobada. Apesar disso, estava ofegante tão logo ele sorriu pra mim.
- Desculpa te fazer esperar.
- Imagina, você foi bem rápida. Eu esperaria muito mais.
Senti meu rosto corar e quis me esconder dentro da camiseta. E se ele estivesse todo fraternal – ou mesmo paternal – pra cima de mim e eu lendo todos os sinais da forma errada?
- Então, você também está visitando?
- Acho que posso dizer retornando – ele sentou na areia e eu o imitei – Estava com uma amigos da faculdade, mas eles foram embora não faz muito tempo.
- E por que você ficou?
- Ah, não sei dizer direito – ele olhava para o mar enquanto falava e eu fazia o máximo para não encarar demais. Era difícil, porque eu queria memorizar cada centímetro do seu rosto – É que eu consegui esse emprego que vai tomar muito do meu tempo, então não sei se vou conseguir voltar tão cedo. Queria me despedir apropriadamente. E você veio arrastada pelo seu pai?
- É – eu ri sem jeito e comecei a encarar meus joelhos quando ele olhou pra mim – Foi uma surpresa. Uma boa surpresa, eu acho. É que eu nunca gostei muito de praia, sabe? Mas esse lugar...
- Eu sei. É diferente. Ainda assim eu conheço pessoas que não gostam daqui, sabia?
- Que coisa! Bom, toda unanimidade é burra, não? Então é melhor que alguns discordem.
- É um jeito de ver as coisas. Acho que é muito pessoal, que funciona com cada um de um jeito diferente. Como foi pra você?
- Ah, acho que foi a coisa da casa na praia. O conjunto todo. Parecia que alguém sonhou com esse lugar e ele simplesmente se materializou. E você?
- É um pouco mais complicado, ou talvez seja até mais simples. A parte simples é que minha irmã tem uma pousada aqui. Ter um lugar pra ficar é parte do magnetismo.
- E por que é complicado?
- Veja, minha família não é lá muito normal, por assim dizer. Mas pra resumir, foi um desejo de minha mãe que viéssemos pra cá. Ela cresceu aqui.
- Então você veio arrastado pela sua mãe?
- É, algo do tipo. Mas eu era bem mais novo do que você, então ninguém teve essa conversa comigo quando cheguei.
- E como é morar na praia? Você nunca enjoa?
- Ah, teve vezes que eu quis ir embora sim. Não tem muita coisa pra se fazer que não envolva turismo, e essa não é a minha praia. Então sempre que me sentia encurralado eu pegava a balsa, mas me arrependia no meio do caminho e voltava na mesma balsa. Então, quando eu realmente tive que ir embora só pensava em voltar.
- Que coisa! Meu maior desejo sempre foi escapar de onde eu vivo.
- E onde é isso?
- Uma cidadezinha bem longe daqui, quase no Mato Grosso. Não tem absolutamente nada por lá.
- Eu sei bem como é. E por que você quer tanto ir embora?
- Sei lá, acho que eu já cresci o suficiente para aquela cidade. Acho que preciso de mais. Mas eu morro de medo que dê tudo errado e eu precise voltar.
- E o pior é que só quando a gente volta pode perceber que as coisas não são mais as mesmas, sabe? O tempo passa, a cidade muda...
- ...e você também muda.
Ele me olhou e sorriu, parecendo feliz por eu ter entendido a idéia. Meu corpo reagiu de uma forma estranha, me fazendo sentir como se meu estômago tivesse afundado dentro de mim. Apesar do calafrio que subiu pela minha nuca, senti que estava começando a transpirar e segurei a respiração. Parecia medo, mas medo do que? Tudo o que ele fez foi olhar diretamente pra mim. Tantas músicas tocaram ao mesmo tempo na minha cabeça que eu não consegui identificar nenhuma. Estava confusa e, por causa disso, apavorada. Quando meus ouvidos começaram a apitar comecei a soltar o ar lentamente e então entendi: eu queria desesperadamente beijá-lo. Que bobagem! Isso estava no topo da lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Você está calada já faz muito tempo. Em que está pensando?
Não parecia uma boa idéia contar a verdade.
- Ah, nada de mais. É só que isso tudo é muito estranho, sabe?
- Isso tudo?
- É. Estar aqui nesse lugar vazio conversando com um desconhecido. Não me entenda mal, você é muito legal. Acho que o problema é comigo. Eu não sei como me comportar perto de gente que eu não conheço.
- Ah, você é tímida?
- Não, acho que não. Sou anti-social mesmo.
- Se vamos ser amigos você tem que se socializar comigo. E é isso que estamos fazendo. Não se preocupe, está indo muito bem. Você vai se sentir melhor se eu te contar um segredo sobre mim?
- Não sei, mas agora eu quero ouvir!
- Espertinha! – ele limpou a garganta e se aproximou um pouco, para falar quase num sussurro – Quando eu tenho insônia, a única coisa que me ajuda a dormir é deitar debaixo da cama.
- Debaixo da cama? – devo ter falado alto demais, porque ele logo me silenciou com um “shh” – Que coisa mais esquisita! Leite morno não funciona?
- Não.
- Um CD do Kenny G?
- Eu nunca tentei, talvez funcione – ele respondeu entre risadas – Agora você me conta um segredo seu. De preferência um bem cabeludo.
- Deixe-me pensar. Ah, já sei. Ninguém sabe, mas minha vida tem uma trilha sonora.
- Como assim?
- O tempo todo eu tenho uma música na minha cabeça para acompanhar cada momento, como em um filme.
- Você tem vozes na sua cabeça?
- Não, não é como se eu fosse completamente maluca. É mais como se eu tivesse fones de ouvido permanentes e um set list perfeito para cada ocasião.
- E como é isso?
- É bem legal, na verdade. Com meu pai quase sempre tenho uma música do Elvis na cabeça. Com o Bernardo ouço bastante Beatles. Quando eu entro em um carro para viajar sempre vem “Road tripping”, é inevitável. Do mesmo jeito que toda vez que eu caio em Copacabana no Banco Imobiliário eu tenho que cantar “Sábado em Copacabana”. As pessoas ficam irritadas com isso, mas é divertido.
- E você ainda tem coragem de dizer que meu jeito de dormir é esquisito?
- Eu nunca disse que era uma menina comum.
- E eu nunca achei que você fosse.
Quando ele disse até pareceu um elogio, e talvez fosse mesmo. Minha risada boba surgiu novamente e ele me encarou com um sorriso. Talvez ele gostasse mesmo da minha risada. Talvez alguém mais gostasse dela. Mas quando sua mão tocou a minha por acidente, senti meu estômago se revirar. Devo ter transparecido o mal estar, pois ele ficou muito sério e guardou as mãos nos bolsos.
- Mas agora você vai ter que me contar o que você está ouvindo ai dentro da sua cabeça.
Essa não era uma informação que eu quisesse passar. Shakira cantava bem alto “Antologia” e “Underneath your clothes”, seguida de “Head over feet” da Alanis Morissete e The Corrs com “What can I do”. Um pouco antes que Britney Spears ou outra do tipo aparecesse com mais uma balada de adoração a um rapaz aparecesse todas as outras se calaram e eu ouvi “Hoje a noite não tem luar”, o clássico do amor juvenil no litoral. Senti vergonha de mim mesma e pensei que a adolescência era um ponto negativo na minha vida. Mas então “Can’t help falling in Love” começou e eu decidi que precisava para imediatamente de me encantar por aquele cara.
- Sinto muito, mas esse é um dos itens da minha lista de coisas que eu não faria nem com uma arma na minha cabeça.
- Uma hora dessas você vai me contar, eu sei.
- O que te faz ter tanta certeza?
- É inevitável. Quando eu te cativar, você vai querer me contar.
- Me cativar?
- Sim, como no livro.
- Então eu sou a raposa?
- Eu acho que sim, não tem outro jeito. Você já me cativou.
Senti o ar sumir dos meus pulmões e minhas pernas amoleceram. Eu queria correr e enfiar minha cabeça no buraco da fronha e só sair de lá quando já tivesse idade para dirigir, mas não conseguia me mexer. Meu estômago parecia me ancorar ali onde estava sentada. Talvez meu cérebro tivesse sido afetado também, porque eu não consegui pensar em nada inteligente para dizer.
Novamente muito caridoso, Fernando quebrou o silêncio enquanto usava meu ombro como apoio para se levantar:
- Mas não se preocupe, a raposa cedeu, eventualmente. Então você vai acabar me contando.
Ele segurou minhas mãos e me ajudou a ficar de pé, coisa que achei muito perigosa, pois o simples fato de segurar minhas mãos já me fazia perder a firmeza nas pernas. Ele me ajudou a manter o equilíbrio e continuou segurando minhas mãos:
- Eu tenho que ir agora. A pousada não é muito perto daqui.
- Mas você não vai embora, vai? – o desespero na minha voz era notável - Tipo, embora daqui?
- Não, ainda não – ele me confortou com um sorriso – Eu tenho que ver você amanhã, não é? Então, até amanhã!
Ele me deu um beijo no rosto e soltou minhas mãos com cuidado, em direção ao escuro caminho que levava para a rua. Fiquei estática por um tempo e só quando ele estava quase desaparecendo consegui dizer fracamente “até”. Levei a mão ao rosto e me senti arder. Estava febril, com certeza. Sentei novamente na areia e fiquei um tempo sem me mexer, apenas segurando a minha bochecha e encarando a água. Então deixei meu corpo cair e comecei a encarar o céu, ainda meio letárgica. Pouco depois meu pai apareceu no meu campo de visão e fiquei feliz por ter alguém me dizendo que era hora de tomar banho e ir para a cama. Eu não conseguiria sair daquele estado por conta própria.
Então mecanicamente me lavei e me acomodei na cama, morrendo de medo de acordar e descobrir que ainda estava em Celeste, que meu pai não tinha decidido me levar para o lugar mais bonito do mundo e que eu ainda era a menina baixinha, gordinha e indesejável que sempre acreditei ser – até aquela noite.

2 - Surpresa!

Ficou combinado que meu pai passaria o resto daquela semana providenciando as coisas para a matrícula. O carro mal tinha saído da garagem e eu já estava no telefone, pulando de ansiedade.
- Bernardo, sou eu.
- Geralmente eu falo alô e então você se apresenta, não é?
- Ai, moleque chato! Você não quer saber por que eu estou ligando a essa hora?
- Ah, eu quero?
- É, eu acho que não te interessa saber que eu já conversei com meu pai sobre a coisa de estudar no Veritas...
- Foi?
- Foi.
- E ai?
- Agora você está interessado?
- Não enrola, Elisa. Vai me dar uma crise de ansiedade.
- Peça desculpas.
- Ai, inferno! – ele bufou e eu abafei o riso – Por favor, me desculpe. Você é a rainha do universo. Como foi a conversa?
Eu resumi o almoço do dia anterior, sem conseguir esconder a minha felicidade. Ele também estava tagarelando sobre como seria um máximo quando estivéssemos estudando juntos. Apesar de sempre afirmar o contrário, eu queria poder voltar a passar tempo com ele. Foi bom ter alguém tão feliz quanto eu com tudo aquilo, alguém que entendesse o quanto era importante. Conversar com Bernardo era sempre a forma mais rápida de me alegrar.
- Você não pode vir pra cá? E vou ficar sozinha a semana toda. Você podia dormir aqui e a gente acampava na sala, fazendo maratona de animes!
- Na verdade, eu tenho planos...
- Não faça isso comigo! Sua mãe vai te levar pra onde desta vez? Isso é tão injusto! – a campainha tocou e eu fui atender, sem parar de reclamar ao telefone – Eu sei que há uma grande parcela de inveja, porque o meu pai nunca me leva pra lugar nenhum, mas você prometeu que passaria uns dias aqui comigo. Sua namorada mora aqui, peloamor!
Quando abri a porta fui surpreendida pela figura do meu melhor amigo parado no portão. Fiquei pasma.
- Ex namorada. – ele falou antes de fechar o celular num movimento rápido – ex.
Eu corri para abrir o portão, ainda com a cara de idiota surpreendida. Ao contrário de mim, ele tinha aquela cara de quem diz “eu sou mais esperto do que você”. Naquele momento ele era mesmo.
Depois de quase um ano sem vê-lo, precisei de um minuto para processar aquela imagem. Ele definitivamente estava mais alto, já devia estar chegando no metro e setenta. Os cabelos castanhos, fartos, ondulados e brilhantes continuavam rebeldemente espalhados pela sua cabeça. Ele também parecia mais forte. Mas o sorriso perfeito sob o nariz perfeito e os grandes olhos castanhos era o mesmo de sempre. Eu queria abraçá-lo, mas era estranho demais. Coisas que só a adolescência pode fazer por você. Eu segurava a grade do portão enquanto olhava abobalhada para aquela pessoa que eu mal podia reconhecer. Quando foi que ele tinha ficado tão bonito? Não importava.
- Você também pode abrir o portão e me deixar entrar, ou pode me deixar aqui do lado de fora como uma visita indesejada.
- É, acho que é a segunda opção.
Abri o portão e notei que a estranheza não era só minha. Ele ensaiou um abraço que não aconteceu e me deu um soquinho no braço. Entramos e eu coloquei o telefone de volta na base enquanto ele se esparramava no sofá. Ele estava muito parecido com o irmão. Isso me lembrou de fazer uma pergunta:
- E os meninos, onde estão?
- Ah, em algum lugar da Europa com a Dona Marisa. Depois que entraram na escola as o tempo que minha mãe consegue passar com eles é sagrado.
- E você não quis ir? Quer dizer, é um continente inteiro!
- Promessa é dívida. Estou aqui. Sem contar que tem todas as coisas para preparar e menos de um mês para as aulas começarem. Eu fiquei com ela em Paris até o Natal, depois meu pai nos encontrou para passarmos as festas com ele. Quando ele precisou voltar semana passada eu vim junto, mas os caras ficaram.
- E ela não ligou de ficar sem o bebê?
- Claro que ligou. Fez alguma chantagem, mas nada impossível de contornar. Pais são reis da chantagem.
- Se são! Quer comer alguma coisa?
Fomos para a cozinha. Enquanto devorava as bolachas do pote, ele me contava os detalhes da viagem e eu contava sobre a farra do final do ano. Ele elogiou meu novo corte de cabelo e eu induzi um comentário sobre a minha boa forma. Queria que ele me contasse sobre Fabrício. Será que ele sentia minha falta? Claro que não.

Meu relacionamento com os meninos Medeiros era muito antigo, por isso o dinheiro nunca foi um empecilho. Durante o divórcio dos pais, os três irmãos vieram para a propriedade dos avós em Celeste. Bernardo tinha os mesmos quatro anos que eu enquanto os gêmeos Fabrício e Renato eram um ano mais velhos. Minha avó tinha me levado a sorveteria naquele dia e eu estava levando o meu copinho para a mesa, com todo o cuidado para não derrubar, quando os três entraram correndo e fazendo barulho. Não demorou nada para que Bernardo tomasse um empurão e esbarrasse em mim, fazendo com que o sorvete e eu caíssemos no chão. Minha reação foi a mais natural possível: eu abri uma boca enorme e chorei sem parar por mais de meia hora. Os três ficaram muito quietos, assustados com meu escândalo. Nada me consolava. Eu estava suja, humilhada e sem sorvete. Não avia remédio. A babá dos meninos conversou com minha avó antes de ela desistir da coisa do sorvete e me levar embora. Eu nunca tinha sentido tanta raiva em minha vida.
Na manhã seguinte eu estava brincando no quintal da frente quando vi o menino que me derrubou parar no meu portão. A babá chamou minha avó, eu fui atrás, com a cara mais emburrada do mundo.
- Elisa, - minha avó começou, tentando me amansar – o Bernardo aqui veio pedir desculpas. Ele também quer brincar com você. Que tal?
Eu nunca consegui deixar atender a qualquer pedido da minha avó. Ela era tão boazinha, tão carinhosa. Concordei em deixar o menino entrar. No final do dia já éramos praticamente irmãos.
No dia seguinte conheci os irmãos e brincamos juntos todos os dias daquele ano. Quando o pai dele aparecia, ele não tinha problema nenhum em me levar junto para os programas. Minha avó já estava íntima dos avós, então ela não me impedia sair. Era a minha pequena família, com os irmãos que eu sempre quis ter, com os brinquedos que eu nunca precisei ganhar. E quando meu pai vinha me visitar ele também não via problema em levar os meninos para qualquer lugar que fôssemos. A única que se importava era a mãe, Marisa. Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-la, só vi algumas fotos. Ela tinha o cabelo muito loiro e liso, um nariz muito fino, a pele branca e pálida e olhos castanhos como os de Bernardo. Ela não parecia ser muito divertida. Quando o grande carro preto que ela mandava chegava para buscar os meninos, eu sabia que era um passeio que não me incluía. Naquele ano os meninos passaram uma semana com ela e só.
No ano seguinte os gêmeos tiveram que voltar para São Paulo, para ir para a escola. Bernardo ficou e nós passamos mais um ano brincando. Logo ele também precisava ir para a escola e teria que ir embora. Na nossa despedida fizemos uma promessa de sermos amigos para sempre. Se fosse com qualquer outra pessoa essa promessa teria perdido a validade antes de o carro chegar em São Paulo, mas Bernardo era diferente. Ele me ligava todas as sextas-feiras, na hora do jornal, e conversávamos por uns cinco ou dez minutos. Mesmo quando não tínhamos o que falar, ele me ligava. Não era pelo assunto, era o compromisso. E quem é que pode dar as costas a uma pessoa assim?
Os anos foram passando, nós fomos crescendo, mas eles sempre me incluíam em suas viagens e sempre que possível vinham passar um tempo em Celeste. E assim nossa amizade se sustentou. Com a internet ficou mais fácil conversar, mas ainda assim toda sexta, na hora do jornal, Bernardo me ligava.
Conforme eu fui crescendo, meus sentimentos foram mudando. E a mudança mais gritante (além do meu peso, quando fiz 12 anos) foi a descoberta da minha paixão por Fabrício. Eu sempre o achei a coisa mais legal no mundo. Ele tinha um carisma forma do comum. Conseguia qualquer coisa com um sorriso. Sempre liderou nossas brincadeiras, inclusive nas vezes que nos meteu em encrencas. Mas era só pedir desculpas e abrir o se sorriso que todos os pecados eram perdoados. Então era natural que no primeiro momento que meu pequeno coração se permitisse sentir qualquer coisa por qualquer garoto, que este garoto seria Fabrício. A minha tristeza foi que a puberdade não tão boa comigo como para ele. Enquanto eu amargava alterações hormonais que estragaram até a raiz do meu cabelo, ele parecia um príncipe, com seus cabelos castanhos reluzentes e seus olhos azuis encantadores. Ele não teve os problemas com acnes como Bernardo e não ficou com os braços e pernas compridos demais, como Renato. Ele era perfeito, mas aquela perfeição não combinava com a menina baixinha, gordinha e de cabelo arrepiado que eu era. Só me restava nutrir aquela paixão platônica até que eu ficasse bonita ou até que ele conseguisse me ver como uma menina de verdade. O problema de ser como uma irmã para um menino é justamente esse: você é uma irmã. Estudar com ele, deslumbrá-lo com meu intelecto e personalidade tinham se tornado um objetivo. Perder todo o peso extra tinha sido uma forma de fazê-lo olhar pra mim, me notar. O plano estava funcionando

- Você devia parar de pensar no Fabrício. Ele não é boa coisa, Elisa.
- Do que é que você está falando?
- Dessa sua cara de boba. Toda vez que alguém fala alguma coisa sobre o Fabrício você fica com essa cara de boba.
- Você tem cara de bobo.
- Boa resposta. É o melhor que pode fazer?
- Ah, você fica projetando as coisas em mim! Só porque você fica por ai suspirando pela Marcela não quer dizer que eu esteja suspirando por alguém.
Ele fechou a cara e falou mais baixo:
- Eu não suspiro pela Marcela.
- O que aconteceu com vocês? Ela foi para a casa do avô sem me contar. Uma hora vocês ficam o tempo todo perguntando um sobre o outro e de repente ninguém nem toca mais no nome de ninguém. Isso é muito estranho.
- Não tem conspiração nenhuma, Elisa. A gente terminou.
- Por quê?
Depois de algumas horas de insistência e uma refeição, ele finalmente se cansou e decidiu me contar, com um pacto de silêncio.
- Como se eu tivesse para quem contar.
- Não é para ter mesmo. Olha, você lembra que quando me apresentou a Marcela você ficou com medo de que ela quisesse alguma coisa com o Fabrício?
- Eu?
- É. Enfim, eu também achei estranho. Acontece que eu acho que ela deveria ter mesmo ficado com o Fabrício. Eles combinam mais.
- Do que é que você está falando?
- No feriado de outubro ela foi para São Paulo me encontrar. Foi uma surpresa, eu achei legal. Acontece que ela não queria só conversar. Ela tinha uma idéia na cabeça.
- Que idéia?
- Ela queria cruzar a linha. Sabe?
- Não.
- Ela queria mais que ficar de mãos dadas.
- Aham. E..?
- Ela tinha idéias, Elisa! – ele estava ficando desesperado e vermelho.
- Que idéias?
- Ideias sexuais!
- Oh... Oh! Ai, meu Deus! Não! Ela é filha do pastor! Ela é professora da escolinha dominical! Marcela não tem idéias assim!
- Mas teve.
- E daí?
- E daí o que?
- Daí as idéias se tornaram fatos?
- Que pergunta é essa?
- Vocês chegaram aos finalmente?
- Eu não vou responder isso!
- Claro que vai! Por que você não responderia?
- É vergonhoso!
- Não seja besta! Sou eu, a rainha da terra da vergonha.
- É, e está querendo me tornar prefeito de lá?
- Sério, você não pode aparecer aqui com um elefante desse tamanho e esperar que eu respeite seu silêncio.
- Nada aconteceu. Satisfeita?
- Chocada é a palavra.
- Não parecia... correto.
- Sei lá. Eu tenho umas idéias sobre isso.
- Você tem?
- Claro. Eu não tenho nada contra quem quer fazer, mas eu prefiro esperar.
- Acho que eu também.
- Tá vendo só? Um baita drama por nada. Ser virgem é normal na nossa idade, eu acho. Aqui pelo menos é. Por isso as pessoas casam cedo, para poderem fazer coisas.
- Deve ser.
- E o que aconteceu?
- Ela ficou brava e foi embora. Nunca mais atendeu minhas ligações, me bloqueou no MSN e não responde meus e-mails. Não nos falamos desde então.
- Isso explica algumas coisas. Uma mulher rejeitada é osso duro mesmo.
- Não queria magoar ninguém. Verdade!
- Eu sei disso, eu sei. Quer jogar videogame?
Não sei por que, mas eu precisava mudar de assunto. Aquela tinha me deixado muito irritada depois que o choque passou. O que a Marcela esperava? Será que ela estava certa em esperar alguma coisa? E o que eu esperava? Ela era linda, loira, desejável. Se ela também estivesse ciente de suas qualidades, talvez pensasse que era irresistível. Isso deve doer. Nunca passei por esse problema, uma vez que sempre tive problemas de auto-estima. Mas por que ela não conversou comigo sobre aquilo? Nós éramos as melhores amigas, as únicas amigas. Tinhamos sobrevivido ao ginásio juntas, sozinhas. Ela porque era tímida demais para ser popular e eu porque achava as pessoas da minha sala idiotas demais para querer conversar com elas. Esperava que ela me contasse algo assim. Talvez não fossemos tão boas amigas. Talvez fosse só conveniência.
Depois de perder todas as partidas de luta por falta de atenção, busquei cobertores no quarto e pedi uma pizza. O tempo passava rápido demais quando estava com Bernardo. De barriga cheia e devidamente acomodados, conversamos até muito tarde. Finalmente eu adormeci no meio de um filme chinês de luta. Naquela noite sonhei que todos os meus amigos tinham crescido, menos eu. Ao fundo se ouvia “Ben”. Parece bobo, mas foi desolador.
Na manhã seguinte saímos cedo com o pretexto de pescar, mas passamos o dia na beira do rio conversando sobre nossas expectativas e algumas amenidades. Assim a semana passou, com muita comida, muita conversa e nenhuma pescaria de verdade. No final da tarde de sexta-feira nos despedimos, pela primeira vez com a certeza de que nos veríamos em breve. Enquanto olhava ele indo embora conseguia ouvir claramente “Stand by me” na versão dos Beatles. Parecia perfeito.
Qual não foi minha surpresa quando eu mal fechei a porta o meu telefone tocou. Olhei pela sala para ver se Bernardo tinha esquecido alguma coisa, mas era outra pessoa ligando: Marcela. Ela queria saber se eu estava sozinha e se podíamos conversar. Então minutos depois eu estava abrindo o portão para uma Marcela abatida e chorosa. Ao sentar no sofá ela desatou a falar e chorar. Não consegui entender nada. Uns vinte minutos e dois copos de água com açúcar depois ela conseguiu falar, entre soluços:
- Eu estou grávida.
Naquele instante o chão sumiu debaixo dos meus pés e eu tive que segurar com força no encosto do sofá para não cair. Numa fração de segundo pensamentos demais passaram pela minha cabeça, o que fez com que ela imediatamente começasse a doer. Como grávida? De quem? Quando? Será que Bernardo tinha mentido pra mim? Será? Não, ele não mentiria. O que a Marcela faria? O que o pai dela faria? O que eu faria se fosse comigo? O que eu faria?
- Você tem certeza?
- Já é o terceiro mês que não vem pra mim. Só pode ser.
Terceiro mês? Outubro não conta. Novembro, dezembro, janeiro. Três meses. Ele mentiria mesmo?
- Outubro...
- Como você sabe?
- Eu fiz uma conta. Como isso aconteceu?
- Foi um acidente! Não era para acontecer daquele jeito. Eu estava em São Paulo, confusa, não sei!
- Tá! Entendi – conforme a mentira se confirmava eu aia ficando mais irritada. Não podia perder o foco – E o que você vai fazer? Já falou com o... com o pai?
- Meu pai? Lógico que não!
- Não, o pai da criança!
Ela começou a chorar novamente e eu já não conseguia mais entender nada. Minha cabeça estava latejando. Eu fui pra a cozinha buscar mais água e uma aspirina. Duas aspirinas.
Talvez fosse muito egoísta de minha parte pensar em qualquer coisa que não a gravidade da situação da minha amiga. A gravidez da situação. “isso lá é hora de fazer piada?”, pensei com uma risada nervosa. Infelizmente, minha mente funcionava a toda capacidade e eu não conseguia me concentrar no problema. Pior do que Marcela se tornar mãe era Bernardo se tornar pai. Pai. Eu bem sabia como era horrível quando um pai é novo demais para assumir a responsabilidade. Eles iam culpar a Marcela e depois passar o resto da vida culpando a criança. Uma criança não deveria ter outra criança. Eu deveria ter crescido com uma mãe e um pai. Eu devia ter amigos que me contariam coisas importantes como a primeira vez. Ou até amigos que não mentiriam na minha cara sobre a primeira vez. Na verdade, eu queria mesmo ter amigos responsáveis que não engravidassem com quinze anos de idade. Eu não tinha nem completado meus quinze anos ainda... O que importava isso? Que diferença faz a nossa idade quando tem um elefante, não, um mamute albino sentado no sofá da sala?
- Acho que a gente podia ligar para o Bernardo. Ele ainda deve estar aqui na cidade. Ou pelo menos perto daqui.
- O que tem o Bernardo com isso? – ela me perguntou entre soluços – Eu não tenho coragem pra encontrar com ele.
- Como assim, “o que tem ele com isso”? Ele é o pai, não é?
- Não – ela parou por um momento, pensando – Não, não tem nada a ver com o Bernardo, definitivamente.
Meu estômago revirou mil vezes em um segundo e eu fui obrigada a me sentar para não cair. Se por um lado havia a possibilidade de meu melhor amigo não ter mentido pra mim, pelo outro havia a certeza de que eu não conhecia aquela menina sentada ao meu lado. A mesma menina que se sentou ao meu lado todos os dias pelos últimos quatro anos. Grávida de quem, meu Deus? Grávida de quem?
- Bom, então precisamos achar esse pai. Quem é?
Ela me olhou, com receio. Continuou olhando até que o receio se transformou em certeza.
- É melhor que você não saiba. É para o seu bem.
- Meu bem? Marcela, presta atenção: isso não é sobre mim. Mas também não é sobre o pai ou sobre você. É sobre a criança. Você não vai contar para o pai? Vai enfrentar tudo sozinha?
- Eu ainda não sei o que vou fazer.
- Não sabe? Como assim?
- Eu olhei na internet, eu perguntei por ai. Existem maneiras de não ter que lidar com isso.
Eu fiquei profundamente irritada com a forma como ela disse “isso”. Eu certamente tinha sido o “isso” da minha mãe algum dia. Será que ela tinha pensado em me abortar?
- Você quer fazer um aborto, é isso? Dá pra fazer?
- Eu não tenho dinheiro, sabe.
- Você pode pedir ajuda para o pai...
- Elisa, esquece o pai um pouco, ta? Eu estou aqui, pedindo a sua ajuda. Sua. Não a dele. Nem a de mais ninguém.
Ela tinha razão. Não era justo eu ficar forçando ela a lidar com um problema que, até então, estava só na minha cabeça. Eu tinha que ser compreensiva. E eu sabia como, sempre soube. Essa era a razão pela qual as pessoas sempre me contavam os segredos e pediam conselhos. Eu não julgava, eu só ouvia. Ouvir era o que eu fazia de melhor. Respirei fundo, olhei nos olhos verdes e inchados de minha amiga e aceitei que ela precisava de uma amiga, não de uma acusadora. Eu não poderia resolver a vida dela, mas talvez falar comigo ajudasse.
- O que você precisa de mim, flor? O que eu posso fazer por você? Eu faço o que for.
- Eu sei que faz – com um sorriso sincero ela segurou minha mão – Só preciso pensar no que fazer.
- Que foi isso que você pesquisou?
- Uma menina na internet disse que cair da escada pode causar um aborto. E ser atropelada também.
- Mas, Marcela, essas coisas também podem causar a sua morte. Então vamos tentar trabalhar de tal forma que sua vida não corra risco, ta?
- Então você não pensa em contar para o meu pai, né? Porque isso é a morte certa.
- Se a gente puder deixar o seu pai de fora é melhor. Mas se você for adiante com a gravidez, não pode demorar muito para contar, senão é pior. Você já pensou nisso?
- Em que?
- Em ter o bebê?
- Ah, Elisa, se eu pensei! Mas eu não nasci pra isso, pra ser mãe solteira. Como eu poderia? Meu pai ia me expulsar de casa, eu ia morrer de fome. Eu não sei fazer nada nessa vida! Só sei cuidar da igreja. E olha que belo trabalho eu faço...
- E se alguém te ajudasse?
- Quem? Ah, não diga “o pai”, por favor. Ele não vai querer lidar com isso, eu sei. Aliás, essa é a única coisa que eu sei.
- Você não me contou desse namorado...
- Não é um namorado. Foi um acaso.
- Sei... mas então, não dá pra fazer uma aborto em uma clínica e eu não vou te jogar na frente de um carro. Tem algum remédio ou algo assim?
Eu não tinha uma opinião formada sobre o aborto naquela época, mas estava muito propensa a ser contra. Eu pensei que Marcela também fosse, já que nós duas éramos meninas cristãs freqüentadoras da igreja. É o tipo de coisa que se espera, não? Mas eu não queria deixar o meu julgamento atrapalhar o julgamento dela. Não importava o que ela decidisse, eu a apoiaria. Eu faria o máximo para que a decisão não envolvesse infringir alguma lei ou colocar nossas vidas em risco. Estava tentando não pensar nas conseqüências.
- Tem esse tipo de coisa em outros países. Mas eu não tenho meios... você sabe. – assenti com a cabeça – Uma moça num fórum disse que era um milagre. Não sei se uma adolescente grávida é um milagre; parece mais uma tragédia! E eu não sei se teria coragem de, sabe? É uma vida, não é?
- Tem gente que diz que sim, gente que diz que não...
- Eu sempre achei que fosse. Mas eu não quero ser uma péssima mãe! E o que mais pode ser uma pessoa como eu? Não está certo, não está!
Passei meu braço por cima de seus ombros e apoiei sua cabeça no meu. Éramos crianças. Eu ainda tinha minhas Barbies no armário e jogava forca na internet. Quem, em sã consciência, deixaria uma decisão tão importante quanto a vida de outra pessoa em nossas mãos?
- Não acho que você precise decidir nada agora. Mas acho que você precisa descansar. Sabe? Gente grávida descansa o tempo todo.
- Você é muito engraçada. Ah, que bom que você está aqui! Eu não conseguiria passar por isso sem você.
Enquanto ela me abraçava eu não pude deixar de me sentir muito culpada, mas não parecia o momento certo para dizer que eu não estaria mais ao lado dela. Em minha cabeça, o refrão de “Stand by me” tinha ganhado um significado completamente diferente de horas atrás.

1 – Veritas

Não posso dizer que todos os passos da minha vida me levaram ao meu primeiro dia de aula no Colégio Paulista Veritas, mas posso dizer que mesmo antes de nascer eu tinha sérias chances de acabar aqui.
Eu nunca soube muito sobre minha família, nunca achei que fosse interessante. Mas um dia, fuçando uma caixa de fotos de minha avó - sem permissão e embalada por “father and son” (quero trocar esta música)– encontrei uma foto amarelada de três rapazes em uniformes muito diferentes dos que eu usava na escola. Sobre a camisa branca, dois meninos usavam casacos de lã – pareciam Cardigans – e o outro usava um paletó. Todos tinham o mesmo brasão, cabelo repartido de lado cheio de gel e um sorriso no rosto. O menino mais alto parecia meu pai. Eu não me lembrava de tê-lo visto sorrindo assim. E os outros eram meu Tio Guilherme e meu Tio Osvaldo, muito mais magro e menos careca. Eu sabia que eles tinham estudado juntos na faculdade, mas não sabia que tinha freqüentado as mesmas escolas. “Isso é que é amizade duradoura”, eu pensei. Olhei atrás da foto e li “Veritas, 1º ano”. Então eu me encontrei num dilema: eu podia pegar a foto e perguntar para o meu pai sobre o colégio, e tomar um corretivo por mexer onde não deveria ou não falar nada sobre a foto e não tomar nenhum castigo. Era curiosidade demais para uma pessoa só. Pensei nas histórias que eles teriam para me contar, da época dos rapazes. Fiz as contas na cabeça. Histórias de antes dos divórcios, dos casamentos, antes de mim e, talvez... antes de minha mãe.
Essa era uma história que eu nunca tinha ouvido e que tinha se tornado minha obsessão. Desde a morte de minha avó no ano anterior, meu maior passatempo tinha sido encontrar coisas sobre minha mãe. Acho que é normal uma garota que nunca conheceu a mãe querer saber algo sobre ela. O que não é normal é um pai que se recusa terminantemente a dizer qualquer coisa sobre ela. Talvez até seja normal, eu não conheço tantos pais assim. A coisa é que minha avó era a única que deixava escapar alguma coisa, como uma música que ela cantava para me fazer dormir ou o quanto ela gostava de comer queijo o tempo todo. Meu pai nunca tocou no assunto e nas poucas vezes que eu tentei, fui imediatamente cortada. Nunca com gritos, nem briga, mas com muita amargura. Sempre depois disso ele ficava muito frio e monossilábico, tanto que eu podia jurar que a temperatura na casa caía alguns graus. Sem minha avó, percebi que nunca mais teria como perguntar a ela todas as coisas que eu tinha medo de saber. Então decidi encontrar as respostas o mais rápido possível – mesmo que doesse – antes que não me restasse mais nenhuma fonte.
Por meses eu sutilmente perguntei a conhecidos, procurei fotos, cartas, um esforço inútil. Tudo parecia muito bem escondido. E era impressionante como ninguém nunca tinha alguma vez conversado com minha mãe. Talvez ninguém quisesse meter o bedelho na história da minha vida – coisa muito estranha, pois meter o bedelho era um esporte naquela cidade – mas o fato é que eu já estava perdendo as esperanças quando encontrei aquela caixa de fotos escondida no guarda-roupa de minha avó. A pesquisa podia ser estendida, não? Eu não sabia nada sobre minha mãe, mas também não sabia muito mais sobre o meu pai. Era um começo. De repente, a história de minha família ficou interessante.
Peguei o telefone e torci para que meu Tio Guilherme atendesse depressa, antes que eu mudasse de idéia. Onde ele estaria numa quarta-feira às oito e meia da noite? Talvez no mesmo lugar que meu pai, pois eu não sabia onde ele estava. Dois toques e desliguei. Que coisa mais besta, incomodar no meio da semana sem nem saber direito o que dizer. Sem ter a mínima idéia do que dizer. Liguei de novo, torcendo para que ele não atendesse.
- Alô – ele disse no tom mal-humorado típico dele.
Entrei em pânico. Esqueci completamente o motivo da ligação.
- Alô? – ele insistiu, mais mal humorado da segunda vez.
- Oi! Alô! Tio, sou eu. Tudo bem? Eu estou atrapalhando?
- Elisa? – desta vez mais surpreso do que mal humorado - Claro que não atrapalha, pode falar. Algum problema ai?
- Não, nenhum. Só queria falar um oi.
- só queria falar um oi? Desde quando você me liga na hora dos seus programas de TV só pra falar um oi?
- Ah, sei lá. Só estava com saudades...
- Vamos lá, menina, pára de enrolar. O que você fez? Precisa de dinheiro? Pode me contar, prometo que ajudo.
- Não é nada disso! É que eu estava vendo as fotos da minha avó, sabe? Pra matar as saudades... – usar o cartão da avó morta era covardia, mas pareceu uma boa idéia - ... e encontrei um foto engraçada.
- Então você está sozinha ai?
- É...
- Onde está o seu pai?
- Ele foi pra São Paulo hoje de tarde. A vizinha ia ficar comigo, mas eu fingi que fui dormir mais cedo...
- Isso é errado, sabia? Se o seu pai quer passar tanto tempo em São Paulo ele deveria ficar logo por aqui. Deixar você ai, sozinha, é um absurdo. Ele vai ouvir amanhã, pode deixar.
- Tio, sério, sem pânico. A vizinha acabou de ir embora. Mas o que motivou a ligação foi mesmo a foto...
- Que foto é essa?
- Uma foto de vocês em um uniforme engraçado. Véritas, eu acho. Era uma escola?
- Onde você encontrou essa foto? – o tom preocupado que usou nessa pergunta me deixou alarmada. Talvez não tivesse sido uma boa idéia.
- Numa caixa, no guarda-roupa da minha avó.
- Eu sabia que isso aconteceria um dia – ele foi de preocupado a irritado em um instante – É, a moça comigo e seu pai na foto é a sua mãe.
Senti o meu estômago se revirar como uma bolha de ar no vidro de xampu. Minha mãe. A menção dela me aterrorizava. Por mais que eu procurasse, acho que não tinha a real intenção de descobrir nada.
- Você conheceu minha mãe – não era uma pergunta, era uma constatação. Um tanto óbvia, mas ainda sim era a melhor forma de processar aquela informação – Você conhece minha mãe.
- Bom, eu sei quem é a sua mãe, se é essa a pergunta. Não é essa a pergunta?
- Na verdade, eu mão encontrei nenhuma foto com minha mãe. Só você, meu pai e o tio Osvaldo.
- Como? – então o pânico da minha voz se transferiu para a voz dele.
- Então, é uma escola?
- Qual foi a pergunta?
- Se Veritas é onde vocês estudaram.
- Essa é uma pergunta muito complicada...
- É uma pergunta muito simples, ué!
- Não é não, e você sabe. Eu não deveria falar disso com você. E você sabe disso. Seu pai...
Eu sabia que ele tinha deixado toda a humanidade de sobreaviso quando comecei a fazer perguntas. Que homem estranho!
- É sobre você, só você.
- Sim, é uma escola. Fizemos o colegial lá. Foi onde conheci o seu pai e o Osvaldo.
- E minha mãe?
- Como assim?
- Foi onde conheceu minha mãe?
- Que pergunta é essa?
- Você começou!
- E vou terminar! Pode parar com o interrogatório. Você pode colocar a nós dois em problemas com essas perguntas.
- Mas tio... eu só queria saber alguma coisa. Qualquer coisa! Minha mãe estudou lá também?
- Pare de me perguntar essas coisas! – senti o desconforto em sua voz. Ele queria me contar - Você não tem uma Barbie pra pentear ou algo assim?
- Por favor?
Ele suspirou. O estrago já estava feito.
- Elisa, entenda. Seu pai acha que é melhor para você se souber o mínimo possível sobre ela. E é melhor pra ele também. Toda essa coisa é muito... ele é muito sensível a esse assunto.
- O que ele quer? Que eu finja que nasci de um ovo? Todo mundo tem mãe. Todo mundo! E eu só sei o nome da minha. Eu podia encontrar com ela na rua e nem saber. Eu não conheço minha própria mãe.
- Nenhum de nós conhece sua mãe, querida. Pensávamos que conhecíamos, mas ela surpreendeu todo mundo quando foi embora. Você deveria saber o quanto isso foi – o quanto isso é doloroso para o seu pai. Ele foi abandonado.
- Eu também fui.
- Eu sei disso! Eu sei! Por isso mesmo você não tem que se preocupar com essas coisas. Nós estamos muito bem, não? Você não é feliz?
- Eu sou uma pré-adolescente, tio. Eu sou biologicamente incapaz de ser feliz.
- Essa é minha garota. Por que você não finge que ela morreu? É muito ruim pensar nas coisas assim?
- Não. Só seria uma grande mentira.
- Muitas das verdades da vida são grandes mentiras.
- É diferente. Se eu viver com esse sentimento, será como se eu estivesse mentindo pra mim mesma. Vai continuar sendo uma mentira, só vou tirar a responsabilidade de vocês. Eu não sou tão boa gente assim.
- Mas o que você quer saber afinal? Que diferença faz agora?
- Eu quero saber por que ela foi embora? Por que ela não me quis? Quero saber se somos parecidas. Sabe?
- Sei. Olha, por enquanto eu só posso te dizer que nós estudamos juntos e foi lá que ela e seu pai se conheceram. E eu também posso te dizer que o melhor a se fazer é parar de procurar coisas, antes que seu pai suma com todas elas. Dê a ele um tempo para te contar tudo. Só mais um tempo.
- Quanto mais?
- Não sei. Mas escute o que eu digo. E você também não quer cotar sobre essa conversa. Comente sobre a foto, quem sabe ele te conta alguma coisa.
- Quem sabe...
- Mas também suma com essa caixa de fotos. Ele pode querer esconder de você o resto.
- Certo... eu acho.
- E vou fazer um acordo com você: no seu aniversário de quinze anos, meu presente pra você será uma resposta. Vou responder a qualquer pergunta, sem enrolação. Pode ser?
- Isso não é lá um bom acordo. Eu tenho que esperar mais cinco anos?
- Pegar ou largar. É o máximo que eu posso fazer.
- Acho que tenho que aceitar, não é?
- Acho que sim. Agora, me conte sobre seu dia. Está empolgada com a quinta série?
- Ah – eu realmente não queria mudar o assunto – sei lá. Parece a mesma coisa, só que com mais professores. Mas eu fiz uma amiga. Uma menina nova na cidade.
- Mesmo? Quem é ela?
Ele estava se esforçando tanto para me fazer pensar em outra coisa que eu fui obrigada a me deixar levar. Eu queria mesmo contar dos meus primeiros dias de aula. Por pirraça tinha empurrado a versão resumida cheia de cortes para o meu pai.
- Renata. Ela é a menina mais bonita da escola, sem dúvidas. Ela é loira, alta, tem olhos verdes e um cabelo liso, liso. Mas, apesar disso, ela gosta de estudar e dos livros do Harry Potter.
- Quem não gosta desse moleque, né?
- Você não gosta!
- É, eu detesto esse moleque. Mas eu não gosto de muita coisa mesmo.
- Por que meu pai não está com você?
- Não sei. Ele deve ter alguma reunião amanhã cedo.
- E você está sozinho?
- Estou. Sua tia Marcela foi embora de uma vez – houve uma pausa um pouco mais longa, quase preocupante - Mas isso é uma boa coisa.
Eu também achava aquilo uma boa coisa. Infelizmente, Marcela não entendia muito bem o relacionamento do meu tio Guilherme comigo. Na verdade, ela era tão ciumenta que não entendia o relacionamento dele com ninguém. Apesar de seus pais ainda serem vivos, não era segredo para ninguém que o Tio Guilherme tinha adotado a família do meu pai. Ele sempre passava as festas conosco, comparecia a todas as minhas festas de aniversário e eventos importantes da escola. Nas minha férias, tirava folga do trabalho só para me levar ao zoológico, ao parque, ao shopping. Como meu padrinho, ele levava muito a sério seu papel de segundo pai. E eu me sentia assim também. Mas a Marcela queria que eles tivessem logo os filhos deles para que ele pudesse mimar e cuidar. Queria que ele passasse menos tempo com meu pai e o Tio Osvaldo. Queria que ele vivesse só para ela. Acho que é muito difícil se encaixar numa estrutura como essa que eles montaram. A dinâmica dos três é incrível. A esposa do Tio Osvaldo, a Diloca, nunca tentou mudar nada. Ela simplesmente era segura o suficiente do seu lugar na vida do marido e não se preocupava em competir com a gente. Tanto que ela acabou se tornando parte daquela nossa família sem vínculo de sangue. Mas a Marcela não. Ela queria uma família só pra ela. Uma boa dica: não faça seu namorado escolher entre a vida que ele tinha antes e a vida que você quer que ele tenha. O resultado pode não ser o esperado.
Então, com menos de três anos de casamento os dois se separaram. Ele pareceu triste, mas eu não tinha acesso aos sentimentos que ele tinha por outras pessoas. Ele só me fazia saber o tempo todo o quanto me amava. O resto ficava guardado só pra ele.
- Ah, veja o lado bom!
- É, deve haver um lado bom. Mas agora eu acho que você deveria se preparar pra ir dormir de verdade. Eu te ligo amanhã, ok?
- Tá certo. Obrigada pelas respostas.
Nos despedimos e eu corri para o meu quarto. Não estava pronta para dormir ainda. Sentei na frente do computador e imediatamente abri o buscador. Se era um colégio, deveria ter um site. A não ser que não existisse mais. Eu estava com sorte e na primeira tentativa abri uma página com o mesmo brasão da foto. Eu assumi que era o mesmo brasão, porque a foto já não era tão nítida.
Tratava-se de uma escola bem antiga, onde haviam estudado muitas pessoas ricas e famosas. Antes era uma escola só para meninos, mas nos anos 60 começou a receber meninas. Não tinha certeza se já havia turmas mistas por lá. A foto do prédio da escola era linda. Parecia coisa de filme. Era uma arquitetura antiga, com cara de começo do século XX. Não que eu entendesse alguma coisa de arquitetura, mas eu era apaixonada pelos prédios do centro velho de São Paulo. Imediatamente pensei no Liceu de Campinas, onde gravavam aquele programa da Sandy e do Junior.
Achei engraçado quando li que era um internato. Até então achava que internato era coisa de aluno degenerado. Mas por ficar muito longe da capital, imaginei que seria meio difícil ir e voltar todos os dias. Sim, a capital é onde ficam as pessoas que tem dinheiro, normalmente. Pelo menos era o que eu pensava.
Para entrar era preciso passar por um processo seletivo. Havia uma prova, uma avaliação do histórico escolar e uma entrevista. Achei que eles levavam essa coisa de seleção muito a sério. Parecia caro. Muito caro. E as fotos dos meninos e meninas em uniformes de colégio inglês aumentavam a impressão de que se tratava de um outro mundo, distante demais do meu em diversas formas além da geográfica.
No meio da minha pesquisa uma mensagem instantânea pulou na minha tela.
“Fazendo o que por aqui? Pensei que ia mexer nas coisas da sua avó”
Era o meu melhor amigo, Bernardo. Apesar de ele ser um herdeiro em São Paulo e eu ser a filha de um advogado em Celeste, no interior do estado, conseguíamos manter nossa amizade desde os quatro anos de idade.
“já mexi. Achei uma foto do meu pai na escola. Ele era chegado em gel”
“Acabei de quebrar meu recorde no jogo das bolinhas. Já é a terceira vez.”
“É, você é mesmo um desocupado. Estou lendo aqui, dá licença.”
“Lendo o que?”
“Veritas. Sabe o que é?”
“Além de latim?”
“É, seu idiota”
“É uma escola. Colégio Paulista Veritas”
“Você conhece?”
“Sim, claro. É uma escola muito famosa e tradicional. Minha mãe diz que temos uma vaga reservada desde o dia que nascemos. Ela faz questão que estudemos lá.”
“Por quê?”
“sei lá, porque sim. Acho que ela se empolgou com a coisa de colégio interno”
“Se fosse por isso ela podia mandar você para qualquer país do mundo”
“Ah, não. Isso me obrigaria a ler e escrever em mais um idioma”
“Você já fala uns quatro. Não ia ser um problema”
“É a coisa da tradição... Mas o que tem de interessante nisso?”
“Minha mãe também estudou lá”
A resposta demorou a chegar. Ele sabia da delicadeza do assunto
“Você deveria estudar lá também. Assim, poderíamos passar o ano inteiro juntos”
“Ninguém merece!”
Não tinha pensado naquilo ainda. Talvez aquele lugar tivesse alguma resposta. Mas era dinheiro e tempo demais investidos em uma coisa que podia não dar em nada. Mas eu ficaria mais perto do meu amigo. E do irmão mais velho dele, por quem eu estava perdidamente apaixonada desde antes de saber o que era estar apaixonada. Se havia um bom lugar para que ele pudesse notar minha presença, certamente seria aquele. Numa escola com menos de 300 alunos, ficava meio difícil não conhecer alguém, muito menos alguém com quem ele brincava desde muito pequeno. Alguém que freqüentava sua casa, com quem passava horas jogando videogame e contando histórias. Talvez não fosse uma idéia tão ruim assim.
“Mas deve ser caro”
“Tente uma bolsa. Você é praticamente um caso para a Unesco”
“É, por isso eu moro em uma tribo na África”
“Celeste é uma cidade cheia de tribos. Só que são vários clãs de roceiros!”
“Mesmo com esses roceiros, você ainda passa suas férias aqui”
“Ora, não se ofenda. Eu ainda gosto de você, mesmo sendo uma caipirinha”
“Não vou nem responder...”
“Tente a bolsa, sério. Você tem bastante tempo para estudar. Sem contar que, se o seu pai estudou aqui, você deve ter preferência.”
Conversei um pouco mais sobre as novidades daquela semana e sobre o avanço da minha Paladina no jogo de tíbia antes de dormir. Naquela noite, sonhei que estava passeando no magnífico prédio da escola, usando o uniforme azul com o casaco de lã e assistindo de longe uma moça com o rosto escondido atrás de uma câmera fotografar três rapazes com gel demais no cabelo ao som de ma balada pop dos anos 80.
Cinco anos depois eu acordei na hora do almoço, ouvindo o carro do meu pai entrar na garagem. Vesti um jeans surrado, prendi o cabelo num rabo de cavalo e tentei não parecer muito amassada. Quando ele me chamou lá embaixo desci correndo. Ele me esperava ao pé da escada com um semi-sorriso. Era impossível não se encantar com meu pai. Ele tinha um rosto quadrado, cabelos muito pretos e bem penteados, um olhar doce e bondoso em olhos castanhos, emoldurado por um par de sobrancelhas harmoniosas. Seu nariz era perfeito, um pouco grande, mas que cabia perfeitamente no rosto grande do meu pai. A barba por fazer pinicava toda vez que ele me beijava. Eu adorava. Ele também não era alto demais, tinha um pouco menos que 1,80m. Estava usando uma camisa branca com um terno claro, sapatos cor de caramelo, mas já não estava de gravata. Se havia uma coisa que meu pai fazia bem, era se vestir.
- Cheguei! – ele anunciou, todo feliz.
- Ah, eu nem vi que você tinha voltado, então não vi que você tinha ido.
- Isso mesmo, a culpa é uma das armas da manipulação. Se continuar assim, vai poder advogar no meu lugar em breve.
- Não, não, muito obrigada. Vou ser engenheira.
- Isso é o que nós vamos ver. Passou bem a noite?
- Aham.
- Quer almoçar comigo?
- Aham.
- Então vamos logo!
Desci a escada pulando alguns degraus e ele me agarrou em um abraço. Apesar de não passar tanto tempo comigo quanto gostaria, meu pai sempre era muito carinhoso. Todas as noites, mesmo quando chegava muito tarde e achava que eu estava dormindo, ele passava pelo meu quarto para me dar um beijo de boa noite. Algumas vezes eu estava acordada, mas fingia que não estava. Nunca consegui entender direito o que me motivava a agir assim. Talvez fosse minha irritação por ele ter chegado tarde, talvez fosse para evitar alguma conversa, talvez fosse para mantê-lo distante. Nunca fui muito boa com essa coisa de proximidade, principalmente com meu pai. Alguma parte de mim, muito pequena, o culpava pela vida que eu levava até então. Mesmo assim ele não desistia. Fazia de tudo para me agradar e ultimamente estava se esforçando mais do que o normal, por causa da morte da minha avó. Ele gostava de me ouvir falando de qualquer coisa, só não tolerava conversas sobre minha mãe.
Chegamos ao único restaurante da cidade que não trabalhava exclusivamente com marmitex. Era um lugar pequeno, muito colorido, especializado em comida italiana. A dona do lugar, Carmela, era um estereótipo da matrona italiana: rechonchuda, os cabelos muito pretos, os olhos verdes muito vivos e sempre gritando com alguém. Quando me viu passando pela porta logo me deu um abraço apertado com seus braços gordos, mas fortes de quem abre massa de macarrão com o rolo. Ela e minha avó eram muito amigas, e foi a sua bondade que abasteceu minha casa de comida quando ela foi para o hospital.
- Gustavo! Ainda bem que você apareceu. Eu já estava a ponto de mandar alguém ver se a menina estava viva. E você está! Que menina mais linda! Vamos, vamos sentar. – ela nos encaminhou a uma mesa vazia perto da janela, sempre gritando com alguém sobre alguma coisa errada, mas sem parar de falar e gesticular – Como você emagreceu, Elisa! Olha só, um saco de ossos. Vamos te encher de comida, ah? Eu fiz uma lasanha que vocês vão adorar, já vou mandar servir. Mas antes comam um pouco de pão, vamos. Ah, e eu vou trazer também aquela sobremesa de chocolate. As crianças adoram chocolate! Ah, que menina linda! E você também, Gustavo, cada dia mais bonito. Eu tenho que lhe apresentar um boa moça, tenho sim.
- Dona Carmela, não se incomode. De verdade. Está chovendo mulher na minha horta – ele sorriu e deu uma piscadela – mas nós vamos aceitar a sugestão sim. Muito brigada por tudo.
Ela sorriu, apertou minha bochecha mais uma vez, e saiu balançando a cabeça e gritando o nosso pedido para alguém dentro da cozinha. O ambiente era caloroso, diferente da minha casa quando ficava sozinha. Meu pai logo começou a espalhar a manteiga caseira no pão quentinho que colocaram na nossa mesa. Eu hesitei por um momento. Tinha passado o ano inteiro lutando contra o peso e ainda estava com a ressaca das festas de final de ano. Decidi esperar pela comida.
- Então, como foi a escola?
- Pai, estamos em janeiro. Não tem escola.
- Nossa, é mesmo. Quando foi que o tempo começou a passar tão rápido?
- Sei lá. Mas já que você falou de escola, eu queria falar sobre isso com você.
- Acho que sinto uma bronca chegando...
- Não, não. É mais um pedido, um aviso.
- Certo – ele ainda se empanturrava de pão, sem tirar os olhos da mesa – pode falar.
- Esse ano eu começo o colegial. Você deve se lembrar – ele assentiu com a cabeça, a boca estava cheia – e nós conversamos vária vezes sobre a escola daqui. É muito ruim, pai. Você concordou. E ficou de me apresentar opções. Isso foi no começo do ano passado. Se você quiser dar alguma sugestão, a hora é agora.
- Hum... o que você quer fazer? Ir para São Paulo? Eu não sei se é uma boa coisa ser adolescente em São Paulo. Tem drogas, sexo, assaltos. É o que você quer?
- Pai, as drogas, o sexo e os assaltos estão em todo lugar. Inclusive aqui. Você não lê o jornal?
- É, teria que ser uma escola particular, sem dúvida. Você quer ir para São Paulo? Achei que gostasse daqui. Eu sei que eu gosto de que você esteja aqui.
- Pai, se liga! Eu estou cansada dessa vida! Eu quero abrir a janela e ver outra coisa além de uma vaca parando o trânsito! Mas eu também não me planejei para estudar em São Paulo.
- Você se planejou?
- Sim. Eu fiz muita pesquisa, alguns testes. Faz um tempo eu estava mexendo nas coisas da vovó e achei uma foto sua, da época do colégio.
Eu pretendia fazer uma pausa para esperar uma reação, mas ela veio imediatamente depois da palavra foto. A cor sumiu do seu rosto e os olhos se arregalaram, me encarando com uma expressão que misturava terror com raiva. Ele sibilou, ameaçadoramente:
- Você encontrou uma foto?
- É. Uma foto de você com o tio Guilherme e o tio Osvaldo usando uns uniformes engraçados. Daí atrás estava escrito Veritas. Eu descobri que era o nome da escola. Você estudou lá no colegial, não é?
- É...
- E você me contou que estudou em um colégio interno. E que o vovô dava aulas na escola.
- É...
- Bom, eu fiquei interessada. Fui atrás de como fazer para estudar lá.
Ele finalmente voltou a respirar e não havia mais nenhuma veia saltada em sua testa. A conversa era amigável novamente.
- Você nunca me contou dessa sua pesquisa.
- Eu queria fazer uma surpresa. Presa aqui nesse fim de mundo eu não esperava conseguir preencher os requisitos e ser aceita. Acontece que eu fui, dá uma olhada!
Abri minha mochila e entreguei a carta de admissão que tinha recebido na semana anterior. O grande envelope branco tinha o brasão da escola no canto superior esquerdo e veio em meu nome. Além da carta de admissão havia também uma brochura com explicações para pais e novos alunos e vários formulários e listas de coisas que deveriam ser providenciadas. Sem ser emancipada é impossível se matricular sozinha numa escola com 14 anos de idade. Antes de ler a carta ele olhou para mim e abriu um sorriso tímido. Era pena ou satisfação?
- Elisa, querida, eu pude estudar lá porque meu pai era professor. Não acho que eu possa pagar a mensalidade dessa escola. Nós não somos pobres, mas eu não sou necessariamente rico. É dinheiro demais. Ficaria mais barato eu te comprar um carro quando fizer dezoito, talvez um apartamento pequeno.
- Você não está exagerando? – se ele ia jogar, eu tinha que jogar também.
- Não, de forma alguma. É muito caro, você deve ter visto isso em sua pesquisa.
- Mas e se eu conseguisse o dinheiro pra pagar?
- Como? Você não pediu para o Guilherme, pediu? Ah, isso deve ter o dedo dele. Não sei como ele planeja desembolsar tanto dinheiro tendo que bancar mais um divórcio...
- Não é isso não. Apesar de que ele ficou feliz quando eu contei que ia fazer a prova. Ele até me levou a São Paulo. Você tinha ido fazer alguma coisa no litoral. Eu não queria ir sozinha.
- Então ele está mesmo metido nisso!
- Pai, foca! Eu não preciso de dinheiro. Se você olhar com cuidado esse papel ai na sua mão vai ver que eu fui aceita e convidada a ingressar a escola com uma bolsa integral. E olha que eles só dão umas 6 bolsas por ano. É uma grande honra.
- Uma bolsa?
Alfredo, o filho mais velho de Dona Carmela, chegou empurrando o carrinho e trazendo a nossa lasagna e uma jarra de água. Diferente da mãe, ele era muito calado, mas igualmente amistoso. Ele me cumprimentou com um sorriso, mas a cara estarrecida do meu pai foi aviso suficiente de que aquela conversa não permitia interrupções. Serviu os pratos rapidamente e voltou para a cozinha. Meu pai manteve os punhos fechados sobre a toalha xadrez.
- É, pai. Uma bolsa. Que bom que você ficou tão feliz – para acompanhar o sarcasmo, uma cara raivosa virada para a janela e braços cruzados contra o peito - É por isso que eu te conto as coisas.
- Filha, não seja assim – sua expressão estava branda novamente e ele relaxou – eu estou muito feliz. Muito mesmo. Sei que deve ter sido difícil. Mas é isso o que você quer? Fugir de mim?
- Não diga uma besteira dessas!
- Então por que você escolheu a escola mais distante que conseguiu encontrar? Devem ser umas 7 horas de viagem!
- Pai, eu só quero ser tão boa quanto você! Eu só quero viver essas coisas! Nós estamos adiando a minha vida por muito tempo. Está na hora.
- Adiando?
- É. Você me escondeu aqui em Celeste e não me deixou fazer nada. E eu aceitei todo esse tempo. Mas eu quero mais, eu mereço mais. Você não acha? Eu fui feita para uma vida maior. Essa escola me dá mais possibilidades, você sabe.
- Não sei...
- Você quer que eu faça o que? Termine a escola, arranje um marido, tenha uma penca de filhos e fique plantando alface para viver? Mesmo?
- Claro que não!
- Você conhece o lugar, pai. Você conhece. Você sabe que é o melhor. Não diga que nunca pensou em me mandar pra lá!
- Nunca – ele ergueu um pouco o tom de voz, mas logo se controlou – Nunca me passou pela cabeça ficar mais tempo longe de você.
“Por isso passa a maior parte do tempo em São Paulo e me deixa sozinha em casa”, eu pensei com irritação. Bom, talvez ele não tenha pensado em ficar longe, mas era o que acontecia. De qualquer forma, sendo uma adolescente nervosa eu não ia conseguir muita coisa. Precisava parecer madura o suficiente para ficar sozinha. Respirei fundo e eliminei qualquer traço de irritação da minha voz.
- Pai, - eu segurei as mãos dele – vai ficar tudo bem. Eu amo você. Nada vai mudar entre nós. A gente pode se falar todos os dias. Você pode ficar no apartamento em São Paulo e parar com essas viagens absurdas. Vai poder ter uma vida de verdade. E eu vou poder fazer o que eu sempre quis. Vamos tentar, pai. Só por um semestre. Se não funcionar, eu volto. Prometo.
Ele me analisou longamente. Eu estava ansiosa. Nunca pensei que conseguiria assim, sem ter que chorar e brigar. Finalmente ele abriu um sorriso desconfiado e falou:
- Um semestre?
- É, um semestre. Um teste.
- Hum... ok – ele estende a mão para fechar o acordo – discutiremos isso de novo nas férias de julho então.
Eu levantei e comecei a abraçá-lo e beijá-lo, agradecendo freneticamente. O almoço continuou com uma conversa animada sobre os preparativos e com algumas histórias de quando ele estudou lá. Eu não pensei que poderia ficar mais feliz. Em menos de um mês eu estaria do outro lado do estado, vivendo a minha vida. Tudo corria de acordo com meus planos. Na minha cabeça “Beautiful Day” tocava bem alto, embalando o caminho para a casa.

Introdução

Quem me vê aqui, agora, hasteando a bandeira ao som do Hino Nacional, pode não entender a importância deste momento. Finalmente o ano letivo acabou e eu ainda estou de pé. Olhando para trás eu vejo como foi difícil chegar até aqui, mas também percebo que já não é suficiente. Nossas vontades mudam, basta apenas um pouco de tempo e perspectiva. Ano passado a coisa que eu mais queria era estudar aqui; no meio deste ano o que eu mais queria era ir embora. Hoje em dia, há muito mais em minha vida além de um desejo geográfico.
Consigo me lembrar claramente dos momentos chave deste último ano, e dos últimos quinze também. Eu tenho certeza de que estar aqui era meu destino, minha sina, e não vou mais fugir disso. Vim atrás de um garoto e encontrei respostas. No final, a gente percebe que recebeu o que precisava, mesmo que não seja necessariamente a primeira coisa na nossa lista de pedidos.